Tudo o que você precisa saber sobre o ballet O Quebra-Nozes

Tudo o que você precisa saber sobre o ballet O Quebra-Nozes

[ATUALIZAÇÃO – DEZEMBRO/2025]

 

Estamos em dezembro e nessa época do ano um dos ballets mais apresentados no mundo inteiro é O Quebra-Nozes. Por isso, o post de hoje é dedicado a ele. Num post anterior já escrevi um pouco sobre a história por de trás desse ballet bem resumidamente link aqui, mas no de hoje vamos mais a fundo. Vamos contar qual o enredo, qual o contexto de sua criação, algumas versões e também algumas curiosidades.

1. Enredo

A história desse ballet se passa na véspera do Natal de uma família alemã no século XIX. Jans Stahlbaum oeferece à sua família e amigos uma incrível festa natalina.

Clara e Fritz, seus filhos, estão ansiosos pelos presentes que irão receber. O padrinho da menina, Drosselmeyer, chega um pouco atrasado, aumentando o suspense das crianças. Ele distribui presentes para todos, e entrega para Clara um presente especial, um quebra-nozes, que deixa a garota encantada. O boneco veste uniforme de soldado, e chama a atenção de Fritz.

O menino logo toma o brinquedo da irmã e, desajeitado, o quebra, deixando Clara desolada. Nem a neve, que confere um ar mágico a esta noite, é capaz de consolar a menina. Mesmo assim seu padrinho lhe garante que tudo será resolvido. A festa logo termina e todos os convidados voltam para suas casas.

Clara abraça o boneco com a intenção de fazê-lo dormir, mas ela logo cai no sono. De repente ela acorda e percebe que seu Quebra-Nozes encantado agora adquiriu vida própria. Mas a alegria da menina não dura muito! De todas as partes surgem ratos terríveis, liderados pelo Rei dos Ratos! O brinquedo agora com vida imediatamente enfrenta este exército, defendendo Clara. Os ratos são derrotados e levam embora o rei ferido.

Logo depois um antigo encanto se rompe e o Quebra-Nozes vira um príncipe, que sai ao lado de sua nova amiga, viajando por uma paisagem mágica, a Terra da Neve, na qual se deparam com flocos de neve que dançam. Depois vão para a Terra dos Doces, sendo recebidos pela Fada Açucarada e seus companheiros: Chocolate Quente da Espanha, Café da Arábia, Chá Chinês, Pirulitos, Marzipans, Mamãe Bombom e seus polichinelos, e Gotas de Orvalho com suas Guirlandas de Flores.

Neste reino encantado o Quebra-Nozes narra suas desventuras; ele e Clara são recompensados, ao fim da história, com várias delícias oferecidas pelos simpáticos personagens. Eles também dançam para os dois. No final, Clara desperta e então se dá conta de que tudo não passou de um sonho. Mas os feitos extraordinários vividos nesta Noite de Natal, mesmo no universo da imaginação, permanecerão para sempre em sua memória.

2. Contexto de sua criação

Apesar de ter se tornado um dos ballets mais queridinhos e populares do mundo inteiro, O Quebra-nozes nem sempre foi estimado por quem o estava criando. A verdade é que Tchaikovsky não queria compor as músicas para esse ballet por ter uma tématica infantil.

Após o sucesso do ballet “A Bela Adormecida”,  Ivan Vsevolozhsky, diretor dos Teatros Imperiais, queria encomendar outro ballet e entregou a Tchaikovsky essa missão. Entretanto, o compositor não tinha gostado dessa obra, apostando no sucesso de outra: a Ópera Iolanta.

Então, para compor as músicas do ballet, Tchaikovsky negociou que a ópera faria parte do pacote. Tchaikovsky demorou por volta de apenas um mês para compor as músicas desse ballet, mas perdeu um pouco mais de tempo para a sua estreia devido a essa negociação. 

A estreia mundial do Quebra-Nozes foi em 18 de dezembro de 1892 juntamente com a Ópera “Iolanta” na Rússia no Teatro Mariinsky. Resultado: Tchaikovsky estava errado em relação às suas duas obras. O Ballet até hoje é um sucesso estrondoso e a Ópera, digamos que nem tanto assim. Mas acontece que Tchaikovsky nunca soube do sucesso que esse ballet faria, pois foi o último que ele compôs. No momento em que ele estava compondo o ballet, estava em profunda depressão e, em menos de um ano depois de ter escrito as músicas, ele faleceu.

Outro motivo também responsável por Tchaikovsky nunca ter sabido do sucesso desse ballet é que, tendo morrido menos de um ano depois da estreia, os críticos não viram a obra com bons olhos. Até tinham gostado do primeiro ato, mas não gostaram do segundo, falando que estava inconvincente e que faltava drama à história. 

Quanto à coreografia do Quebra-nozes, essa responsabilidade seria de Marius Petipá. Ele realmente tinha essa intenção de coreografar todo o ballet, mas adoeceu. Então, seu assistente, Lev Ivanov, continuou com esse encargo. Ele foi restringido pelas anotações detalhadas de Petipá sobre o enredo, mas teve a liberdade de expressar sua genialidade na coreografia dos flocos de neve e no grand pas de deux. 

3. Versões do ballet

Existem várias versões do ballet O Quebra-nozes. Vou citar aqui muito brevemente de cada uma delas.

  • Uma delas é a de Peter Wright para o Royal Ballet de 1984 em que ele mantém fragmentos sobreviventes do material original do ballet, incluindo o sublime pas de deux da Fada Açucarada e seu príncipe.Mas, ao enfatizar o relacionamento entre Clara e o Quebra-Nozes, a produção também ganha um subtexto comovente do primeiro amor. 

  •  Outra versão é também a de Christopher Wheeldon para o Joffrey Ballet feita em 1893 e relata a história aos imigrantes.

  • Uma outra é uma Sulafriacana do Joburg Ballet, “O Quebra-Nozes reimaginado”, que tem Drosselmeyer como um tradicional curandeiro africano, que mostra a Clara a beleza do continente, e inclui as botas usadas na dança russa.

  • A versão do Ballet Nacional da China tem como tema o Ano Novo Chinês e apresenta Tuantuan (Fritz) intimidando Yuanyuan (Clara) com nunchucks enquanto usava uma máscara de dragão verde, e ela sendo ajudada por tigres empunhando espadas.

  • Há também a versão de Nureyev para a Ópera de Paris, que não tem a Fada Açucarada nem o reino dos doces e o Drosselmeyer e o Príncipe são a mesma pessoa. 

4. Curiosidades

1. Na estreia mundial do ballet, a bailarina Antonieta Dell’Era interpretou o papel da Fada Açucarada (papel dado à primeira-bailarina). Já no Brasil, a primeira apresentação foi em 1957, montado por Eugenia Feodorova, dançado no Teatro João Caetano, ocasião em que Dalal Achcar fez o papel de Fada Açucarada. 

2. Não por acaso, a nossa primeira Fada Açucarada, Dalal Achcar, assina uma das versões mais tradicionais do ballet. Sua primeira montagem do Quebra-Nozes foi em 1974 e por muitos anos essa versão se manteve no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

3. O ballet se baseia no conto de E.T.A. Hoffman, chamado “O Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos”. Esse mesmo escritor vai também basear o libreto do ballet Coppélia.

4. No livro original, podemos ver algumas diferenças em relação ao ballet: primeiramente, no livro, não há qualquer menção à personagem da Fada Açucarada. Temos, na verdade, a Princesa Pirlipat, a mais bonita do reino, que é amaldiçoada pela Dona Camundonga (a mãe do Rei dos Ratos, este, por sua vez, no livro tem 7 cabeças). O Quebra-nozes é, na verdade, o sobrinho do Drosselmeyer e é transformado em boneco ao tentar quebrar a maldição da princesa e tropeça no rabo da Dona Camundonga. No ballet, esses personagens do livro original, se quer são mencionados e o ballet não costuma explicar porque o Príncipe vira boneco. Além disso, o livro original tem um tom mais sombrio que o ballet.

5. O enredo é contado sobre a perspectiva de Clara, a menina que ganha o boneco Quebra-Nozes de seu tio na noite de Natal e cai no sono. Mas essa personagem também pode ser conhecida por “Marie” nos EUA ou ainda “Masha” na Rússia. O nome “Clara” se popularizou nos EUA, mas, no livro original, a personagem principal se Chama Marie e Clara, na verdade, é a sua boneca.

6. A personagem da Fada Açucarada quase não existiu. Quando estava no processo de compor as músicas do ballet, Tchaikovsky recebe a notícia da morte da sua irmã e fica devastado. No início, não gostava da temática infantil do ballet, mas ele ressignificou o ballet, passando a enxergar a sua própria vida com a sua irmã toda a partitura foi remodelada em torno de suas memórias do último Natal que passaram juntos, em 1890. Na personagem Clara, ele via a própria irmã e, a Fada Açucarada, nada mais é do que o reflexo da própria Clara , dançando em tons diferentes.

7. Melodia da música do pas de deux da Fada Açucarada foi também influenciada na morte da sua irmã. Isso explica porque a música é tão cheia de sentimento, possuindo um tom um tanto quanto melancólico e dramático.

8. A viagem a Rouen na França o fez terminar em 10 dias a música do ballet. Tchaikovsky não conseguia se obrigar a escrever o restante da obra sem que soasse miserável e sem vida. Ele estava, em suas próprias palavras, “em uma espécie de crise”, incapaz de compor para um texto tão sem vida, mas também incapaz de negar os desejos diretos do czar que o contratou para fazer o ballet. Sua solução foi, naturalmente, viajar para Rouen, na França, algumas semanas antes do início da turnê, onde se trancou em um quarto de hotel por dez dias seguidos. Raramente a solidão ajuda, e essa experiência só o aprofundou em sua depressão. Ele finalmente saiu do quarto quando chegou a hora de partir para os Estados Unidos e, sem nada a mostrar por seus dez dias de exílio autoimposto, estava imerso em uma profunda crise pessoal. O que realmente o destruiu, porém, não foi o exílio, nem a ameaça de um prazo iminente que ele estava longe de cumprir, mas um jornal que leu antes de um show de pré-turnê que faria em Paris. E nesse jornal estava a notícia da morte de sua irmã.

 

9. “O Quebra-Nozes faz parte de uma trilogia Petipá-Tchaikovsky, juntamente com “A Bela Adormecida” e “O Lago dos Cisnes. Mas isso não quer dizer que essas histórias são continuações uma da outra, apenas que são trabalhos que o coreógrafo e o compositor fizeram juntos. 

 

10. O ballet se tornou uma grande febre após a versão de Balanchine de 1954 para o New York City Ballet e após ter sido televisionado em 1957 e 1958. (Balanchine conhecia muito bem o ballet, tendo dançado inclusive o papel do Príncipe aos 15 anos ainda na Rússia pelo Ballet Imperial quando era aluno da escola). Depois disso, especialmente nos EUA, se tornou quase obrigatório apresentar “O Quebra-Nozes” na época do Natal. 

11. Na versão de 1993 de Balanchine podemos ver o ator Macaulay Culkin como o Príncipe.

12. Em 2018 foi lançado um filme com base no ballet, chamado “O Quebra-Nozes e os quatro reinos”. Mas a história original do ballet é modificada no filme. No filme a Fada Açucarada é má e conta com a participação da bailarina Misty Copeland.

 

Esse ballet tem ou não tem todas as razões para ser tão amado até hoje? O que vcs mais gostaram de saber? Me conta nos comentários! Até o próximo post!

 

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Minhas fontes

. Wikipedia

. Petipa Society

. Melody In Tragedy

. Globo

. Livro: Ana Botafogo – Na Magia do Palco

. Livro: O Livro do Ballet – um Guia dos Principais Bailados dos Séculos XIX e XX  – Volume 02 – Cyril W. Beaumont

. Livro: Ballet: The Definitive Illustrated Story – Viviana Durante

. Livro: O Quebra-Nozes: edição bolso de luxo – A versão clássica e a versão original – Alexandre Dumas e ETA Hoffman

 

Sobre o autor

2 Comentários

  1. Julimel

    Oi Ju, td bem? Eu sou a Julimel do blog Vídeos de Ballet Clássico. Achei muito legal seu post do Quebra-Nozes e não conhecia as versões de Christopher Wheeldon, do Joburg Ballet é do Ballet e do Ballet Nacional da China. Achei muito interessantes e vou procurar sobre elas ^^ Mas devo adverti-la de que há algumas informações erradas nas curiosidades:

    O Lago dos Cisnes não foi uma parceria de Tchaikovsky e Petipa. A versão original foi criada por Julius Reisinger, em 1877. A de Petipa surgiu apenas em 1895, dois anos após a morte do compositor.

    O nome Marie vem do conto original de O Quebra-Nozes e pelo que sei, Clara se popularizou justamente nos EUA, embora várias versões mantenham o original, como a montagem de Balanchine e até no Bolshoi. O Masha surgiu na Rússia durante o período soviético.

    Grande beijo!

    Responder
    • Ju

      Oi Julimel! Que prazer você aqui! Muito legal essa troca de informações! Essas sobre as versões achei num livro de ballet que tenho comigo! Vale a pena dar uma olhada! 😉

      Responder

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