Hoje vou falar sobre o ballet Satanella!

Para quem me acompanha, sabe que a minha variação deste ano de 2020 foi a de Satanella. Em breve vocês vão ver um REACT, no mesmo estilo que eu fiz no meu solo de Paquita, mostrando todas as etapas, os ensaios, as minhas evoluções.

Esse ano uma das escolas que eu danço, a Petrouchka, decidiu fazer um espetáculo online para que não deixasse de ter apresentação. Todas as meninas dançariam um solo de repertório, nós enviamos os vídeos para uma das alunas editar e isso vai ser transmitido entre nós. Para mim, a minha professora escolheu a variação de Satanella. Algumas vezes eu me questionei se esse solo era para mim mesmo, porque olha! Que solo difícil e cansativo! Mas adorei o desafio! Foi um solo mais cansativo que o do ano passado e que eu AMEI dançar!

Enquanto eu não mostro todo o processo para vocês (já foi gravado! Só aguardem um pouco aqui ou no canal), vamos estudar juntas sobre esse ballet?

Vou fazer um post no estilo que eu já fiz sobre O Quebra-Nozes, com o máximo de informações: o por quê da confusão dos nomes, o enredo, curiosidades, contexto da criação e tudo que for interessante.

1. Satanella, Diable Amoureux ou Carnaval em Veneza?

Vamos esclarecer o por quê de tantos nomes para o mesmo ballet?

  1. O ballet Satanella foi originalmente criado por Joseph Mazilier com o nome “Le Diable Amoreux” (O Diabo Apaixonado). Seu libreto foi baseado no romance de 1772, O Diabo Apaixonado,  de Jacques Cazotte, um escritor francês. Este ballet estreou no Ballet du Théatre l’Académie Royale de Musique, atual Ópera de Paris, no dia 23 de setembro de 1840, sendo um ballet de 3 atos e 8 cenas. Nesta versão do ballet, os personagens principais do livro Álvaro virou Frédéric, Biondetta tornou-se Uriel/Urielle. Nesta ocasião tivemos Pauline Leroux e o próprio Mazilier nos papéis principais.

Sobre o nome “Satanella”, foi devido à versão de Marius Petipá, feita junto com seu pai, Jean Petipá, em 1848, que foi um verdadeiro sucesso, e eles nomearam o ballet de “Satanella, ou Amor e Inferno”, pois Urielle foi renomeada de Satanella. Este nome advém de “Satã”, sendo “Satanella”, a “garota diabo”.

Já o nome “Carnaval em Veneza”, se deve ao fato de que a peça mais famosa que se conhece hoje associada à produção de Satanella de Petipá é  Le Carnaval de Venise ou Satanella Pas de deux. Em 1857, Petipa criou um novo pas de deux  para uma performance beneficente da Prima Ballerina italiana Amalia Ferraris. Petipá coreografou o  pas de deux  com uma nova música arranjada por Cesare Pugni a partir de um ar extraído da peça de Nicolò Paganini para violino conhecido como  Carnevale di Venezia. O  pas de deux  foi intitulado  Le Carnaval de Venise . Quando Petipá reviveu Satanella pela primeira vez em 1866,  Le Carnaval de Venise foi encaixado no terceiro ato do ballet, onde foi mantido por muitos anos.

Esse pas de deux do Carnaval em Veneza também foi renomeado de “Pas de Deux Fascinação”. Após algu­mas outras ver­sões do seu pró­prio bal­let “Satanella”, Petipa con­vida o com­po­si­tor Cesare Pugni para uma nova ver­são, que teve a sua estreia em 7 de maio de 1868, no Teatro do Ballet Imperial de São Peterburgo. O Pas De Deux, que tinha sido core­o­gra­fado 9 anos antes, foi inse­rido nesta nova ver­são, no 3º Ato, e foi cha­mado de “Pas de Deux Fascinação” . É essa a ver­são que per­ma­ne­ceu no reper­tó­rio russo e se tor­nou a base para ver­sões pos­te­ri­o­res na Europa. E é esse o Pas de Deux dan­çado nos Concertos de Gala e com­pe­ti­ções mundo afora.

Ainda há o nome  “Satanilla”: o bal­let de Petipa foi renome­ado mais uma vez, sendo cha­mado na Rússia de “Satanilla”, com “i”, e não Satanella, com “e”.

2. Enredo

Satanella conta a história de Conde Frédéric (ou Conde Fábio a depender da versão) e Urielle (ou Satanella), que se apaixonam. Mas, Urielle, é na verdade, um diabo feminino invocado acidentalmente pelo jovem espanhol, Conde Frédéric, que assume a forma de mulher para seduzi-lo.  Isto será revelado após a jovem tirar sua máscara na véspera do casamento do casal. É claro que a história não é tão simples: o Conde já era comprometido com Phoebe e se envolve com Lilia, sua irmã de leite. A história deste ballet, baseado no romance de Cazotte, é na realidade dotada de muito ciúmes entre Phoebe e Frédéric, que no final, não ficarão juntos.

A história começa numa festa nos jardins do castelo de Phoebe. Ela está com Conde Frédéric, seu amante, e Hortensius, gover­nante do Conde, ao seu lado. Lilia, uma cam­po­nesa, chama a aten­ção do Conde. Ele vai con­ver­sar com ela. Phoebe sente ciú­mes e o força a voltar para o seu lado.

Há uma crise de ciúmes entre o casal Phoebe e Frédéric, que não acaba nada bem: Frédéric fica furioso e vai para a mesa de jogos. Hortensius tenta impe­dir. Frédéric não pára de jogar até o momento em que perde tudo o que tem. Ele sai da mesa, sendo seguido pelos outros joga­do­res e Phoebe. Os joga­do­res cobram dinheiro de Frédéric, que não tem nada. Lilia corre até ele e lhe entrega o anel, uma cruz e outras joias. Ele, emoci­o­nado, aceita a cruz e um rosá­rio, que serve de cor­rente. Ele beija as joias e guarda pró­ximo ao cora­ção. Hortensius o tira de lá o empurrando e Frédéric acusa os parceiros de terem feito uma trapaça. As espadas são puxadas, Phoebe separa os combatentes e Lilia cai em lágrimas.

Agora, na biblioteca do palácio do Conde Frédéric, há uma pintura de Belzebu em cima da lareira. Os servos da mansão entram na biblioteca, com medo do barulho na porta. Lá dentro já estavam Frédéric e Hortensius. Frédéric lamenta ter pedido tudo e Hortensius pede que se acalme com alguns livros. O Conde estuda as páginas com pouco interesse, até chegar a um manuscrito que se trata de magia negra. Ele resolve seguir o exemplo de seu ascendente e invoca o auxílio de Belzebu. Com essa invocação, a lareira é ferida por uma lança de luz, pela qual caminha Belzebu com Urielle, um demônio feminino, rastejando aos seus pés. Hortesius foge e Frédéric desmaia.

Belzebu acha Frédéric indigno dele, orde­nando que Urielle fique com ele na forma de um pajem, obedecendo-o, para levar sua alma depois, assim como na pin­tura. Urielle, insa­tis­feita de ter que escon­der seu sexo, obe­dece. Belzebu desa­pa­rece, a torre volta ao nor­mal e Frédéric acorda.

Há uma festa no palácio do conde com orgia, bebida e jogo. Frédéric está rico e feliz e deixa que suas paixões se expandam. As libações e o jogo circulavam livremente, e cortesãs vestidas de bacantes e ninfas entretêm os convidados com danças. Urielle aumenta o tumulto zombando os jogadores que perderam e intrigando os amantes.

Phoebe chega e dança. Urielle na forma de pajem, com ciú­mes, vai dan­çar com o conde, que é enfei­ti­çado e não con­se­gue aca­bar com aquela dança estra­nha. No final, ele fica a sós com Phoebe, em um sofá. Urielle faz a ima­gem de Lilia apa­re­cer, o conde vai atrás dela. Lilia chega com a sua mãe. Phoebe apa­rece, com ciú­mes, pega um punhal e corre para ata­car Frédéric, Lilia entra na sua frente e recebe o golpe por ele. Chega uma mul­ti­dão, o grande mei­ri­nho e outros ofi­ci­ais da lei. O diabo pega na mão de Frédéric e desa­pa­rece com ele.

A próxima cena ocorre no mar e algu­mas casas de pes­ca­do­res. No fundo, em cima das rochas, uma capela. Chega Bracaccio, chefe dos pira­tas, e seus pira­tas. Em uma casa, Hortensius cuida de Lilia. Chega Frédéric e a pede em casa­mento. Ela aceita e come­çam os pre­pa­ra­ti­vos. Urielle se deses­pera.

O conde Frédéric desce da capela e vai até a casa bus­car sua noiva. O diabo está em seu lugar. Começam as pri­mei­ras bên­çãos e o diabo começa a ficar inqui­eto. Chegando na igreja, quanto mais Urielle aden­tra o templo sagrado, mais a música muda. Quando ela está pres­tes a subir no altar, tro­vões são escu­ta­dos, as velas da igreja se apa­gam, a porta fecha vio­len­ta­mente e Urielle cai des­fa­le­cida. Todos saem cor­rendo da igreja, com medo. Frédéric leva a noiva até um banco e vê que ela é o diabo.

Agora estamos no inferno. Urielle apa­rece no banco onde Frédéric a dei­xou. Belzebu não acre­dita na capa­ci­dade de Urielle tra­zer a alma de Frédéric, mas ela garante ser capaz. Belzebu lhe dá três dias para fazer com que o conde assine o pacto, um rolo de papel. Ela retorna para a terra.

Há muitos outros acontecimentos no meio do caminho, mas o bem e o mal come­çam a bri­gar no cora­ção de Urielle. Surgem novos sen­ti­men­tos, e então a alma de mulher vence a do diabo. Prevalecem o amor e a compai­xão. Ela então diz que se per­derá por ele, mas que o sal­vará e o dei­xará ser feliz. Ela joga o pacto na lareira e morre no mesmo momento em que as cha­mas se apagam.

Lilia reco­bra os sen­ti­dos e é tomada de emo­ção junto com Frédéric. Ela começa a rezar aos céus para que Urielle seja perdoada, o conde pega a cruz e o rosá­rio que rece­beu de Lilia no pri­meiro ato e põe sobre o coração de Urielle.

No Inferno novamente, Belzebu está rode­ado de demô­nios. Um enorme demô­nio traz Urielle em seus bra­ços e a coloca no chão, perto de Belzebu. Os demô­nios se pre­pa­ram para pular em cima de Urielle e devorá-la, quando, de repente, apa­rece um anjo, que a pro­tege e estende a mão para ela. Urielle acorda, se vê entre os demô­nios e, por ins­pi­ra­ção divina, pega a cruz e o rosá­rio de Lilia sobre o seu peito e mos­tra aos demô­nios, que fogem hor­ro­ri­za­dos dos sím­bo­los sagra­dos. Ela então sobe os degraus em direção ao anjo, que a recebe nos braços.

Subindo, ao fundo vê-se a igreja do segundo ato e a pro­cis­são de casa­mento de Frédéric e Lilia.

3. Contexto da criação

Joseph Mazilier nasceu em 1801 em Bordéus, França, onde começou sua carreira de bailarino. Em 1822 foi para Paris e lá alçou vôos maiores. Foi nomeado premiere danseur de caractère e maître de ballet. Dele se dizia que poderia compor um ballet num dia e dançar todas as noites. Chegou a ser partner de Marie Taglioni em La Sylphide, ballet que fez dela uma grande estrela, e também compôs um alto número de ballets: La Gypsi, Le Diable Amoureux (do qual estamos falando neste post), Paquita, Le Corsaire e muitos outros.

Sabemos que o libreto do ballet tem como base o romance de Jacques Cazote, “O Diabo Apaixonado”. O assunto do romance pode parecer estranho para um ballet; na verdade, o romance de Cazotte é creditado como a origem do gênero de fantasia. Na época, era raro que um ballet se baseasse em uma história que não fosse do mito clássico nem do conto popular tradicional (La Sylphide, por exemplo, é baseado numa lenda escocesa). Le Diable amoureux obviamente não era nenhum dos dois, e como tal começou a quebrar muitas barreiras no mundo da literatura e do ballet.

Há muitos pontos em comum com os demais ballets românticos: como a figura do bem e do mau, personagens etéreas e a valorização do amor romântico e até utópico. Mas neste ballet, ao contrário de muitos outros do mesmo gênero, os personagens principais não vão ficar juntos no final.

No ano de 1840, em que estreia o ballet, a França ainda vive a sua Era do Ouro do Ballet. A antiga Académie Royale de Musique, atual Ópera de Paris era o berço de boa parte dos ballets de sucesso e das estrelas do ballet (alguns anos antes, em 1832, La Sylphide consagrara Taglioni e o Ballet Romântico) e isso durou por um bom tempo. Até pelo menos a Guerra Franco-Prussiana, que começaria a crise da primeira companhia profissional de ballet do mundo. Mas isso já foi assunto de outro post.

Mazilier foi o primeiro, mas não o último a usar o romance de Jacques Cazotte, “Le Diable Amoureux”, para um ballet. O ballet foi de tamanho sucesso na Académie Royale de Musique, que tiveram outras versões de igualmente grande sucesso, sendo uma das mais famosas a de Petipá, após o acréscimo do pas de deux do Carnaval em Veneza. Vamos ver tudo isso com mais detalhes nos tópicos seguintes.

4. Curiosidades

  1. O escritor francês de cuja obra se baseia o ballet, Jacques Cazotte, mor­reu gui­lho­ti­nado em 25 de Setembro de 1792, às 19:00 horas, na Place du Carrousel, em Paris, devido à sua posi­ção con­trá­ria à Revolução Francesa. Quando a Revolução come­çou, em 1789, Cazotte era pre­feito do muni­cí­pio de Pierry, Marne, região de Champagne-Ardenne, e as suas últi­mas pala­vras foram: “Eu morro como vivi, fiel ao meu Deus e a meu Rei”.
  2. A estreia mundial do ballet se deu no dia 23 de setembro de 1840, sendo a versão de Mazilier. Nos papeis principais estavam o próprio Mazilier, como Frédéric e Pauline Leroux como Urielle.
  3. Este ballet foi o veículo escolhido para o reaparecimento da bailarina Pauline Leroux, a quem um acidente a forçara deixar o palco temporariamente. Seu reaparecimento neste ballet foi um esplendor, sendo elogiada por suas habilidades técnicas e artísticas.
  4. Em Londres, o ballet foi ao palco pela primeira vez no dia 11 de março de 1841 no Theatro de Sua Majestade (Her Majesty’s Theatre). Nesta ocasião, a Sta. Marie Guy-Stephan interpretou o papel de Urielle e talvez a novidade já houvesse passado devido a uma comédia musical, meio ópera, meio ballet, com o mesmo tema, com o título de “Satanas and the Spirit og Beauty“, que foi levada anteriormente naquele ano, no Theatro Real Adelphi.
  5. Em 1843, no verão, no o Teatro Real de Drury Lane, o ballet foi dançado por Carlotta Grisi e Lucien Petipá nos papéis principais.
  6. O ballet voltou novamente à cena no seu teatro mais antigo, o Teatro Real de Drury Lane, agora sob o título “The Devil in Love“, com Pauline Leroux em seu papel original em 20 de novembro de 1843. Neste momento, Leroux foi comparada à Grisi, dizendo que ela não fez nada eletrizante como esta, mas que ainda assim é uma boa bailarina, dotada de grande elasticidade e muito boa nas pantomimas.
  7. Le Diable amoureux  desempenhou um papel significativo nos primeiros anos da carreira de Petipa na Rússia. Poucos meses depois de sua chegada a São Petersburgo, seu pai, Jean Petipá, acompanhou-o à antiga capital do Império Russo, assumindo o cargo de professor de dança masculina na Escola Imperial de Ballet.  “Le Diable amoureux”  foi um dos primeiros ballets parisienses que Petipá encenou para o Ballet Imperial, para o qual colaborou com seu pai. A dupla pai e filho encenou o ballet sob o título  Satanella  e estreou no Imperial Bolshoi Kamenny Theatre no dia 22 de fevereiro de 1848, com Elena Andreyanova como Satanella e Petipá como o conde Fabio (Urielle passou a se chamar Satanella, e Frédéric, passou a ser Fabio). Satanella foi um dos ballets que Petipá encenou em Moscou quando ele e Andreyanova se comprometeram a se apresentar no Teatro Imperial Bolshoi no final daquele ano. A atuação de Andreyanova em Moscou como Satanella foi um enorme sucesso e ela foi regada com base nas flores e presentes do público.
  8. Nesta ocasião, pai e filho (Marius e Jean Petipá), trabalharam juntos tanto para montarem o ballet, quanto para dançarem, eis que Marius interpretou Conde Fábio e Jean como Hortensius. O sucesso desta versão foi tanto que em 1849 pai e filho foram envi­a­dos à Moscou para a remon­ta­gem do bal­let, que estreou em 19 de Janeiro, com os mes­mos bai­la­ri­nos nos papéis principais.
  9. Após “Satanella” de Petipá ter sido um enorme sucesso, vários outros ballets parisieneses foram revividos, especialmente após a chegada do grande mestre do balé francês Jules Perrot em São Petersburgo em 1849. Petipá colaborou com Perrot nas encenações de ballets em São Petersburgo como  Giselle  e  Le Corsaire.  Ao longo de seus primeiros oito anos em São Petersburgo, Petipá encenou muitas danças para ópera e danças revividas para os revivals de obras mais antigas de Perrot.
  10. Petipá reviveu  Satanella em duas ocasiões para o Ballet Imperial. Para seu primeiro revival, novos acréscimos musicais foram compostos por Cesare Pugni. A primeira revivificação de Satanella por Petipá estreou no Imperial Bolshoi Kamenny Theatre no dia 30 de outubro de 1866 com Praskovya Lebedeva como Satanella e Lev Ivanov como Conde Fabio. Dois anos depois, Petipá encenou seu segundo avivamento com mais novidades musicais de Pugni. Seu segundo revival estreou no Imperial Bolshoi Kamenny Theatre no dia 7 de maio de 1868, com Alexandra Vergina como Satanella e Ivanov como Conde Fábio.Um renascimento da versão de Petipá de  Satanella  foi encenado no Imperial Bolshoi Theatre em 18 de fevereiro de 1897 por Ivan Clustine, que é mais conhecido por ser o coreógrafo da companhia de Anna Pavlova. A versão de Satanella de Petipá não sobreviveu, mas a coreografia de Mazilier para sua produção parisiense de Le Diable amoureux  foi notada por Henri Justament e faz parte de sua coleção de ballets franceses do século XIX.
  11. A peça mais famosa que se conhece hoje associada à produção de Satanella por Petipa  é  Le Carnaval de Venise ou Satanella Pas de deux. Em 1857, Petipa criou um novo concerto  pas de deux  para uma performance beneficente da Prima Ballerina italiana Amalia Ferraris, o qual se associou à bailarina. Petipá coreografou o  pas de deux  com uma nova música arranjada por Cesare Pugni a partir de um ar extraído da peça de Nicolò Paganini para violino conhecido como  Carnevale di Venezia (Op.10) . O  pas de deux  foi intitulado  Le Carnaval de Venise. Quando Petipá reviveu Satanella pela Primeira  vez em 1866,  Le Carnaval de Venise foi colocado no terceiro ato do ballet, onde foi mantido por muitos anos.
  12. Le Carnaval de Venise  viveu muito depois que o longa  Satanella  deixou o repertório do Ballet Imperial. Petipá reviveu ou  pas deux para a bailarina italiana Pierina Legnani e a coreografia realizada por Legnani, especialmente para variação feminina, parece ter sobrevivido até hoje.
  13. Na Rússia, esse  pas de deux  é conhecido como  Fascination Pas de deux de Satanella,  ou  O Carnaval de Veneza Pas de deux,  ou Carnaval Veneziano Pas de deux. No oeste, é conhecido simplesmente como  Satanella Pas de deux.  Os múltiplos títulos da peça derivam de suas origens em Satanella  e do fato de que a música teve sua base na composição de Paganini para violino Carnevale di Venezia (Op. 10).
  14. Hoje, o  Satanella pas de deux  é um marco do repertório do ballet clássico e do circuito de competição de ballet. O  pas de deux  é apresentado com destaque no célebre documentário  As Crianças do Teatro de Rua,  apresentado pela Princesa Grace de Mônaco e que traça o perfil dos alunos do Instituto Coreográfico Vaganova.

5. O que a crítica disse sobre o ballet

Comentando os cenários, diz um crítico no dia 26 de setembro de 1840:

” A vila da primeira cena; a capela com o grande lance de degraus talhados na rocha; o quarto, o mercado de Ispanan; o sétimo; e, finalmente, o último, o Céu e a terra, talvez sejam os mais admiráveis cenários pintados pelos Srs. Philastre e Cambon.

Sobre a música:

“A música é em geral bonita, muitas vezes grandiosa, e sempre apropriada às situações que lhe compete explicar ou traduzir”.

Sobre a reaparição de Pauline Leroux, que estava longe dos palcos devido a um acidente, fez sua reaparição com

“um esplendor, uma propriedade e uma animação cuja lembrança será carinhosamente conservada por longo tempo. Parece que a ausência, ao invés de ser prejudicial à Senhorinha Pauline Leroux, aumento, desenvolveu aquela qualidade etérea, aquele equilíbrio e precisosas tradições da nobre escola das quais ela sempre foi das mais graciosas intérpretes. Passando de pajem a mulher, de amante a bailadeira, sempre soube como emprestar a cada cena o caráter adequado, ao mesmo tempo em que nada perdia de sua delicada beleza; ela soube conceber cada disfarce e cada papel com incomparável propriedade e finura. Por certo modo, Pauline Leroux constitui todo o bailado, o deus intersit do entrecho; é ela quem faz a peça andar, entrando por um  alçapão, saindo pelo outro, transformando-se de homem em mulher num segundo, às vezes descendo aos infernos, doutras subindo aos céus, bela e espirituosa em toda a parte e em todo o tempo. E isso porque ela é uma bailarina francesa que mima com nosso chiste, que dança com nossa animação, viva, petulante, cheia de provocação e malícia, mas acima de tudo, cheia de desespero e amor.”

Em Londres, o “Le Diable Amoureux” foi apresentado pela primeira vez em 11 de março de 1841. À época, Marie Guy-Stephan desempenhou o papel principal de Urielle. O The Times noticiou de maneira breve:

“Le Diable Amoureux… foi montado com grande esplendor como um bailado, que, não obstante isso, muito lucraria com uma condensação. Uma nova bailarina, a Sta. Guy-Stephan, fez sua primeira apresentação; moça alta, de lindo rosto, move-se com grande flexibilidade e daça com graça fácil e espontânea que é muito agradável, sem traduzir qualquer sentimento pelos gestos, nem exibir nenhuma agilidade notável”.

O ballet voltou à cena em 2o de novembro de 1843 com o título de “The Devil in Love”, novamente com Pauline Leroux em seu papel original. O crítico do The Times declara que o ballet foi

“bem montado. Um quadro que representa uma capela, com vasta escadaria rente ao mar, constitui um bom exemplo de bela decoração cênica, e temos também uma formosa e deslumbradora vista de um bazar oriental. A tesoura de podar deveria ser usada com toda liberdade, pois o cumprimento do bailado é algo de formidável para a presente época, e então se poderia vaticinar razoável carreira.”

Já sobre Leroux, o mesmo crítico diz que ela

“nada faz para eletrizar a assistência como Carlotta Grisi; não há nenhum feito maravilhoso para ser registrado, nenhum novo gesto fica impresso na memória. Contudo, ela ainda é uma bela dançarina, dotada de grande elasticidade, e, na pantomima, é excelente. O modo apaixonado pelo qual contemplou o Conde adormecido, sua entrada altiva quando vem exigir o cumprimento dos termos do contrato, seu súbito enternecimento, seu terror à vista do padre, quando em certa ocasião, disfarçada de camponesa, estava para desposar Albert e sente a repugnância de um mau espírito pelo aparecimento da santidade, tudo isso feito com arte. O pas de fascination, com o qual seduz o Vizir, foi um belo espécime de pantomima dançada. Ora se torna travessa e animada, ora evasiva e sentimental; depois se arrasta lenta e silenciosamente à volta do Vizir, fixando nele os olhos até que parece absorto numa atmosfera de fascínio. Quando, por fim, cai de joelhos com a cabeça atirada para trás, e o pandeiro levantado, atiraram uma chuva de ramos de flores e o bis foi pedido em altos brados.”

6. Versões do ballet

  • A versão que foi feita por Joseph Mazilier e estreada na Ópera de Paris em 1840, contando com Pauline Leroux e o próprio Mazilier, que foi a primeira versão de “Le Diable Amoureux” para um ballet. Mas não foi a única. Ele, além de ter sido um dos personagens principais, se res­pon­sa­bi­li­zou pelo libreto, tornando-se coau­tor do mesmo, e cha­mando o grande dra­ma­turgo fran­cês Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges como prin­ci­pal autor do libreto. Como já escrito acima, nesta versão, os personagens principais chamam-se Urielle e Frédéric e contou com a música de Napoléon Henri Reber e François Benoist. Acima temos uma imagem do elenco da estreia desta versão.

  • Há ainda a versão de Filippo Taglioni, “Ballet Fantástico em 6 par­tes”, com sua filha Marie Taglioni (foto acima) no papel de Satanella, feito para o Teatro La Scala em 1842.

  • Também existe a ver­são de Paul Taglioni, irmão de Marie, que core­o­gra­fou Satanella em 1850, em Londres, para Carlotta Grisi, remontando-o dois anos mais tarde em Berlim, para a sua filha Marie-Paul Taglioni (foto acima), com o nome de “Satanella, ou Les Metamorphoses”.

 

  • Em 10 de Fevereiro de 1848, menos de um ano após a che­gada de pai e filho na Rússia (24 de Maio de 1847), Jean Antoine e Marius Petipa estreiam a nova ver­são de “Le Diable Amoureux”, que cha­ma­ram de “Satanella, ou Amor e Inferno”. A heroína prin­ci­pal teve o seu nome mudado de Urielle para Satanella, papel que dá nome ao ballet, e Conde Frédéric passa a ser Conde Fábio. O bal­let foi feito com base na mesma core­o­gra­fia e músi­cas do bal­let de Mazilier, com orques­tra­ção feita por Aleksandr Lyadov (Liadov). Nesta ocasião, Aleksandr Lyadov foi nome­ado regente da Orquestra de Ballet de São Petersburgo.Como prin­ci­pais, esta­vam: Yelena Andreyanova e Marius Petipá, como Satanella e Conde Fábio, e Jean Petipa como Hortensius.

  • Em 1857, Petipa core­o­gra­fou um Pas de Deux para o Concerto de Benefício da bai­la­rina ita­li­ana Amalia Ferraris com música de Cesare Pugni, que tomou como ins­pi­ra­ção alguns temas da peça de Niccolò Paganini “Carnavale di Venezia” (Op. 10). Esse Pas de Deux foi inti­tu­lado: “Carnaval de Veneza Grand Pas de Deux”.

 

  • Após algu­mas outras ver­sões do seu pró­prio bal­let “Satanella”, Petipa con­vida o com­po­si­tor Cesare Pugni para uma nova ver­são, que teve a sua estreia em 7 de maio de 1868, no Teatro do Ballet Imperial de São Peterburgo. O Pas De Deux, que tinha sido core­o­gra­fado 9 anos antes, foi inse­rido nesta nova ver­são, no 3º Ato, e foi cha­mado de “Pas de Deux Fascinação” . É essa a ver­são que per­ma­ne­ceu no reper­tó­rio russo e se tor­nou a base para ver­sões pos­te­ri­o­res na Europa. E é esse o Pas de Deux dan­çado nos Concertos de Gala e com­pe­ti­ções mundo afora.

 

  • Em 1984, o coreó­grafo russo Vassily Medvedev faz uma nova ver­são de Satanella para o Teatro Vanemuine, em Tartu, na Estônia, com músi­cas de C. Pugni, F. Benoist e N. Reber.

 

  • Em 1989, no Ballet National de Marseille, França, estreia “The Devil in Love, ou Le Diable Amoureux” core­o­gra­fado por Roland Petit, com música de Gabriel Yared, libreto de Jean Anouilh e Roland Petit. No papel prin­ci­pal estava Alessandra Ferri.

 

 

Fontes Bibliográficas: