Oi pessoal!

O dia do mestre é hoje, e, para esta data especial, decidi dedicar a uma professora de ballet que, além ter sido uma excelente professora, fez história no ballet clássico, sendo um dos motivos para isso o fato de ter criado seu próprio método de ensino. Decidi, então, contar um pouco da história da Agrippina Vaganova e do seu método de ballet, que ainda hoje é um dos mais populares no mundo da dança. Se você quer ler um resumo geral sobre todos os métodos, deixarei aqui o link, porque esse post de hoje não se presta a isso.

1. A história de Vaganova

No último post que escrevi aqui sobre o ballet russo, comecei contando como lá ele se desenvolveu. Só para relembrar vocês: o ballet surgiu na Rússia graças aos incentivos dos Czares e teve uma bela ajuda de Petipá para o seu desenvolvimento. Se você se interessar em se aprofundar um pouco mais, deixo o link desse post aqui, porque o de hoje vai continuar a partir do ponto de onde esse último parou.

Em 1738, a czarina Anna Ivanova cria a primeira escola de ballet russo, a Escola Imperial. Também disse nesse outro post, que esta escola viraria a Academia Vaganova de Ballet. E é aqui que nos interessa essa história!

A verdade é que após Petipá ter feito tanto pelo ballet russo (quando ele chegou à Rússia, muitas estrelas que estavam lá dançando foram importadas de outros países, como por exemplo, as primeiras bailarinas de Petipá que no geral eram as italianas como Pierina Legnani, Carolina Rosati e Carlotta Brianza; contando também com muitos professores que também não eram russos, como por exemplo, Charles Didelot, mestre francês), começam a surgir estrelas nesse ballet que agora eram russas, entre elas, Fokine, Karsavina, Pavlova, entre outros.

Essas estrelas vão se espalhar pelo mundo e vão estimular o ballet, inclusive no Brasil. Ao contrário dessas esntrelas, após a Revolução Russa, Vaganova vai continuar por lá, e vai desenvolver o seu próprio método. Antes dela, seria o “período pré-Vaganova”, a Escola Russa de ballet ainda não formava bailarinos pelo seu método.

Nascida em 26 de junho de 1789, Vaganova começou a sua história no ballet quando em 1888, aos 9 anos de idade, foi aceita na Ballet Imperial School. Se formou em 1897 na Classe de perfeição da primeira bailarina Eugeniia Sokolova, sendo também foi treinada por Ekaterina Vazem , Christian Johansson , Lev Ivanov , Nikolai Legat e Pavel Gerdt. Em 1916, ela se aposentou como bailarina para se dedicar à carreira de professora e em 1921 retornou à mesma escola em que havia feito aulas, a Escola Imperial, mas dessa vez renomeada por Escola Coreográfica de Leningrado (*naquele período São Peterburgo ficou assim conhecida).

O mais interessante na carreira de Vaganova é que, ao contrário do que muitos possam pensar, ela não foi uma bailarina tão brilhante como outras de seu tempo (dizem ela ter sido de certa forma ofuscada por outras bailarinas como Anna Pavlova e Tamara Karsavina), mas ainda assim se tornou uma brilhante professora e criou um método de se ensinar o ballet que se popularizou no mundo inteiro.

O ballet não foi fácil para Vaganova nos seus primeiros anos como aluna, mas lentamente, através de sua própria força de vontade, ela conseguiu acompanhar a ilustre companhia de Ballet Imperial após sua formatura. A essa altura ela alcançava o posto de solista, enquanto os baletômanos de São Petersburgo a apelidavam de “Rainha das Variações” pelo seu nível de técnica e seu virtuosismo ilimitado, com seus saltos e baterias. A variação que dançou no ballet La Bayadere é conhecido como Variação de Vaganova.

Apesar da boa técnica, Vaganova não era a mais bonita dançando e nem tinha as mais belas linhas. Há registros de Petipá a chamando de “terrível” e “pavorosa”, mas mesmo assim é muito reconhecida e respeitada no mundo da dança até hoje, sendo uma história muito inspiradora a todos nós bailarinos. Isso se deve a sua dedicação à carreira de professora, dedicação essa que perdurou o resto de sua vida, aperfeiçoando o desenvolvimento pedagógico da dança clássica. Ela começou a sua tragetória enquanto professora em 1921 com  e fez isso por praticamente toda a sua vida.

2. O método de Vaganova e sua história

Como estávamos falando, o ballet na Rússia foi muito desenvolvido graças ao financiamento dos czares, então, quando veio a Revolução Russa em 1917, implementando o comunismo, o futuro do ballet naquele país parecia ser praticamente inexistente. Muitos talentos russos como Balanchine, Nureyev, Baryshnikov, Nijinsky migraram para outros países e lá desenvolveram o ballet e a sua carreira. Ao mesmo tempo, alguns ballets, por exaltarem o czarismo (antigo regime antes do comunismo), vão ser ou modificados ou vão praticamente sumir do mapa. Foi o que aconteceu com La Bayadere, por exemplo. Naquela época, foi suprimido do ballet o terceiro ato, acabando logo após o reino das sombras.

Mas, Vaganova lutou para que isso não acontecesse e que todo o legado deixado por Petipá ficasse para trás. De 1931 a 1937, foi diretora artística do Teatro de Ópera e Ballet de Leningrado (que mais tarde virou Kirov Ballet ). Em 1933, ela encenou a versão clássica do Lago dos Cisnes de Lev Ivanov e Marius Petipa, com Galina Ulanova como Odette, Olga Jordan como Odile e Konstantin Sergeyev como Príncipe Siegfried. Em 1935, ela reviveu La Esmeralda, em parte com sua própria coreografia. Ela acrescentou um “novo” Pas d’action especialmente para Galina Ulanova e Vakhtang Chabukiani, hoje conhecido como “Diana e Acteon”.

Em 1934, ela publicou seu famoso livro Fundamentos da Dança Clássica: resistiu a pelo menos seis edições na Rússia e foi traduzido para vários idiomas. No mesmo ano, Vaganova (junto com Boris Shavrov) iniciou o estabelecimento no Conservatório de Leningrado do departamento pedagógico para treinamento de futuros professores de ballet, que ela começou a administrar. Lá, alguns de seus ex-alunos da escola de dança se tornaram seus alunos. Os nomes mais importantes para o ensino da dança são Vera Kostrovitskaya (autor de 100 aulas de dança clássica), Nadezhda Bazarova e Varvara P. Mey (autores do Alfabeto de Dança Clássica). Eu não sei vocês, mas eu já estou louca por esse livro!

Vaganova teve influência de professores franceses com quem estudou que prezavam a elegância e suavidade dos movimentos, assim como da técnica italiana, que influenciava o ballet soviético na época e prezava o virtuosismo, a resistência e a força dos pés, mas não tinha graciosidade. Com sua ofuscação por outras bailarinas contemporâneas, Vaganova tornou-se muito crítica consigo mesma e com o método de ensino do ballet e se dedicou a melhorar as técnicas já existentes. Da francesa aproveitou a graciosidade dos movimentos e da italiana utilizou a força, a resistência e as aulas bem planejadas, tudo isso aliada ao espírito e poesia das danças russa, criando, assim, um estilo único que viria a ser conhecido como Método Vaganova. A codificação desse método foi publicada no seu livro.

O método exige a utilização correta e domínio da técnica desenvolvida especificamente para os braços, utilizando com clareza os port de bras, e aplomb, onde o aluno domina o movimento do tronco de forma a realizar com mais clareza os movimentos de execução dos membros inferiores, assim como o equilíbrio das formas e piruetas. A técnica de Vaganova é conhecida por ser uma técnica brilhante e limpa, exigindo precisão e domínio total do movimento, combinada com grandes amplitudes de movimentos e flexibilidade da parte superior do corpo.

Vaganova enfatiza uma pedagogia que busca o aprendizado de forma gradual, onde cada grau tem seus exercícios característicos, e de maneira a preservar o aluno de lesões, enfatizando, para isso, a consciência corporal do estudante a cada movimento. Seu trabalho é focado principalmente no desenvolvimento das características necessárias para que os bailarinos possam executar pas de deux e ênfase especial é dada a dançar com o corpo inteiro ao invés de simplesmente se executar movimentos mecanicamente.

Entre as características mais trabalhadas estão o desenvolvimento da força da parte inferior das costas, plasticidade dos braços e o desenvolvimento da força e da flexibilidade necessários ao estudo do ballet. Os braços neste método passam de uma posição a outra de forma mais perceptível do que no método Cecchetti e as mãos mudam de direção no último momento do movimento. Os primeiros estágios focam no epaulement e na estabilidade e força das costas, visando a que o movimento seja fluido e harmonioso. Ao mesmo tempo em que se trabalha a técnica, a arte também é adquirida individualmente, proporcionando uma forte e melodiosa expressividade. O resultado são bailarinos que arrebatam o público ao mesmo tempo com sua graça e sua bravura.

Sua primeira pupila de sucesso, Marina Semyonova, teve estréia (em 1925) vista como um marco na história do ballet soviético, “um ressurgimento da dança clássica em toda sua glória e beleza”. Alexei Yermolaev, Galina Ulanova, Vakhtang Chabukiani, Natalya Dudinskaya, Konstantin Sergeyev e Irina Kolpakova foram os pupilos mais ilustres de Vaganova e se tornaram o orgulho da dança soviética.

Após a morte de Vaganova, seu método de ensino foi preservado pelos instrutores, como Vera Kostrovitskaya. Vera preservou os ensinos de Agrippina Vaganova e os publicou de forma detalhada no livro “100 lessons in classical ballet”. Esse método é ensinado de forma massiva na Rússia e se popularizou, sendo amplamente adotado na Europa, América do Norte e outras regiões. Bailarinos formados pelo método Vaganova incluem: Anna Pavlova, George Balanchine, Mikhail Baryshnikov, Marina Semyonova, Rudolf Nureyev, Galina Ulanova, Nathalya Makarova e Irina Kolpakova.

Seu livro Os Fundamentos da Dança Clássica, publicado em 1934, tornou-se literatura obrigatória para todos aqueles que no mundo inteiro se dedicam à dança, venham ou não a ser bailarinos. Hoje o método Vaganova é o método mais amplamente utilizado para o ensino do Ballet na Rússia, sendo usado também na Europa e na América do Norte.

Em sua homenagem, a escola de ballet de São Petersburgo foi renomeada para Academia Vaganova em 1957. E assim não poderia deixar de ser! Vaganova morreu em Leningrado, em 5 de novembro de 1951, mas seu legado de bailarinos formados e professores se manteve e continua a influenciar o ballet até hoje! Como professora, Vaganova foi gentil e encorajadora, mas também exigiu precisão, atenção aos detalhes, concentração e trabalho duro. Ela incentivou seus alunos a aprender constantemente!

Ela é mais uma prova de que não precisamos de facilidades físicas para irmos longe na dança e que para ser um profissional da dança se estuda e MUITA! Minha total gratidão a ela e a todos os professores de ballet e de dança que passaram na minha vida e que muito me ensinaram e me ensinam até hoje! Se hoje eu estou aqui, além de apaixonada pelas aulas de ballet, por dançar e também por pequisar e estudar é graças a vocês!

Até o próximo post!