No dia 1º de abril de 1846 estreava mundialmente o ballet Paquita e por isso o post de hoje é sobre ele! Aqui no blog e no canal, já mostrei um react ao meu solo. Dancei uma das variações desse ballet (que vou deixar o link aqui), que foi uma grande superação para mim, e por isso tenho um carinho ENORME por ele!

1. Enredo

O Ballet Paquita é um ballet de 2 atos e 3 cenas e se ambienta na Espanha durante a ocupação do exército de Napoleão. Os personagens principais da trama são Paquita, uma jovem cigana, e o Conde Lucien d’Hervilly, um general francês. O ballet conta também com outros personagens, que estão listados na foto acima. Na foto, quem interpretou cada personagem na sua estreia mundial.

O primeiro ato do ballet se inicia nos Vale dos Touros nos arredores de Saragoça. Os camponeses divertem-se no sol. Entra um general francês acompanhado pelo Governador espanhol, Dom Lopez, e sua irmã Serafina. Lucien, o filho do general, vem ao lado da avó.

Lucien explica que a placa de mármore foi feita em homenagem ao seu irmão, morto naquele lugar por uma quadrilha de bandidos, há alguns anos. O Governador o interrompe e diz que uma festa popular vai se realizar. Ele faz as honras de sua terra enquanto o General segura a mão de Serafina e a coloca na de seu filho. Ela não se opõe, mas a atitude de seu pai sugere a resignação mais por necessidade política do que por aprovação.

Uma alegre música anuncia a chegada de um bando de ciganos que desce pela encosta da montanha. Inigo, o chefe, ao notar que Paquita não está lá, já vai sair em sua busca, quando ela aparece. Inigo, furioso com a demora, lança sobre ela sua ira e ordena aos ciganos que se preparem para a dança.

A Paquita, porém, chama para perto de si e diz-lhe que, se assim desejar, o amo que ela teme se tornará seu escravo. Paquita não dá resposta e começa a dançar como que para afastar seus pensamentos. Inigo tenta fazer com que ela pare, mas ela o olha com tanto desprezo, que o cigano se retira.

Ficando só, Paquita tira do seio uma miniatura que crê representar o retrato de seu pai, e que se relaciona com algum terrível acontecimento que ela relembra. Aquele local parece familiar a ela, mas suas reflexões são interrompidas pela chegada de uma multidão e ela entra na tenda para se preparar para dançar.

A cena fica repleta e o general, sua mãe, Serafina e o Governador tomam os lugares que lhes foram reservados. Os ciganos saem das barracas vestindo roupas de gala e dançam.

Finalizadas as danças, Inigo manda Paquita fazer a volta com o chapéu. Ela obedece, mas de má vontade. Paquita impressiona Lucien, mas apesar da generosa contribuição do rapaz, o chefe não se satisfaz com os lucros e ordena a Paquita que dance mais uma vez, para que ela dê mais uma volta com o chapéu. A moça recusa se submeter ao papel de pedinte. Inigo ameça bater em Paquita e Lucien a Protege.

Procurando acalmá-la, Lucien fica supreso pela delicadeza de sua aparência e interroga-a por não acreditar que ela tenha nascido entre os ciganos. Paquita deseja mostrar-lhe a miniatura, porém Inigo, prevendo o teor da conversa, já furtara o medalhão da moça.

Paquita fica abalada com a sua perda e acusa Inigo de ter roubado dela. Lucien deseja mandar prendê-lo, mas sua família e o Governador intervêm. O jovem oficial se acalma, mas intima Inigo a não forçar Paquita a dançar contra a sua vontade. Mas agora, ela quer dançar para agradar Lucien, e, inspirada por sua presença, dança com tanto entusiasmo que o conquista.

O Governador está muito interessado no rumo dos acontecimentos e, terminada a dança, convida a família francesa para jantar em sua companhia antes que eles regressem. Pede a eles que vão adiante, porque ele precisa ficar até o final da festa.

Deixado a sós com Inigo, diz a ele que poderá matar Lucien impunemente, pois é contrário ao casamento de sua filha com o oficial. Sugere ainda que Paquita seja usada como isca para atrair Lucien para a armadilha. A cigana volta, e o Governador vai se reunir com seus hóspedes. Enquanto isso, Inigo reúne seu bando.

Paquita mal fica só, Lucien corre para seu lado e lhe oferece uma bolsa volumosa, propondo a ela que parta em sua companhia. Ela, porém, vendo a distância que separa uma cigana de um oficial, recusa o convite.

O Governador volta antecendendo os hóspedes. Inigo, que espiou os namorados de um esconderijo, conta a ele do encontro. Dom Lopez anuncia que o general francês está prestes a se retirar e pede aos camponeses que lhe ofereçam um tributo em forma de uma cesta de flores, mas conserva o ramo de Paquita, que entrega a uma jovem cigana, a quem dá certas instruções.

O general, sua mãe e Serafina aprontam-se para partir. Lucien começa a segui-los, quando a tal cigana lhe oferece o ramo de Paquita, que ele reconhece com grande satisfação. Ele interroga a cigana, que lhe diz como poderá encontrar o caminho para a casa de Paquita, que não fica muito longe. O rapaz, radiante, diz aos parentes que se juntará a eles em Saragoça no dia seguinte, quando um grande baile será dado em honra de seu próximo casamento.

Os aldeões dançam em uma ronda de adeus em torno dos hóspedes, que estão de partida, enquanto os ciganos, junto com Inigo e Paquita à frente, trilham seu caminho pelas pedras. Lucien segue à retaguarda.

Neste momento finaliza o primeiro ato e começa o segundo, que se inicia o interior de uma habitação cigana.

Paquita entra sozinha, sonhando com o oficial, a quem acredita que nunca mais verá. Seus pensamentos sao interrompidos por um rumor do lado de fora. Ela abre a porta e, para sua supresa, vê um homem mascarado e de capa que se encaminha para a sua casa. Suspeitando de algo de mal, ela se esconde atrás do aparador.

Inigo entra com o homem da capa, que, ao retirar a máscara, vemos que é o Governador. Ele ordena ao cigano que seja implacável e Inigo o mostra o narcótico que preparou. Dom Lopez, satisfeito com isso, dá a ele uma moeda e depois chama pela janela quatro homens, a cada um dos quais faz um pagamento por conta. Meia noite é a hora marcada para o assassinato de Lucien. Inigo esconde doius homens na lareira, que gira sobre si mesma.

Paquita aproveita a oportunidade para arrastar-se em direção à porta, mas seu pé prende-se numa cadeira e Inigo volta-se e corre para ela, temeroso de que a moça revele o plano, mas ela lhe diz que mal acaba de chegar. Inigo coloca um dos homens restantes junto à porta e o outro sai pela janela.

Dão uma pancada na porta e Lucien entra, radiante por voltar a ver Paquita. O oficial pede a Inigo que lhe dê abrigo por uma noite. Paquita parece surpresa pela chegada de Lucien, mas ele lhe mostra o ramo que traz sob a capa. Ele entrega a espada a Inigo, que logo a esconde, e dá a capa a Paquita, que a atira sobre a cabeça do chefe, e avisa Lucien por sinais de perigo iminente, que ele se nega a acreditar. Inigo convida-o para jantar, e sai com Paquita para preparar a refeição.

Lucien, deixado a sós, toma conhecimento da situação: encontra a janela trancada e a porta fechada e sua espada desapareceu.

A porta se abre e Paquita entra com os pratos. Inigo segue-a e o jantar é servido. Quando ele menciona que vai sair, Paquita, por sinais, aconselha Lucien a retê-lo. Lucien o chama para jantar, o que é aceito. Inigo enche um copo de vinho para o hóspede; Paquita faz sinal a Lucien de que pode beber e enquanto serve a mesa tira as balas das pistolas que estão no cinto de Inigo, a quem acaricia, e que lhe pede para dançar. Inigo enche o segundo copo de vinho para Lucien, embora o seu ainda se ache intacto. Depois finge lembrar-se de uma garrafa especial no aparador e vai buscar.

Paquita avisa ao namorado de que aquela contém uma droga. O cigano serve um copo da nova garrafa, que o oficial vai recusar quando Paquita deixar cair numa pilha de pratos. Inigo vira-se, irritado pelo prejuízo causado, e Paquita aproveita essa situação para trocar os copos. Lucien convida Inigo para beber em sua companhia. Ele aceita e logo em seguida dança com Paquita. Enquanto está dançando, a moça comunica a Lucien que a hora do perigo se aproxima. Ele tenta beijá-la ao passar, mas ela lhe aconselha que finja que está dormindo.

Inigo zomba de Lucien, aparentemente indefeso, mas no mesmo instante sente-se entorpecido e cai em sua cadeira. para respirar melhor desafoga a roupa e a miniatura de Paquita cai sobre a mesa.

Paquita pede a Lucien que se levante rapidamente pois a hora fatal vai chegar. Ele agarra as pistolas do cigano, mas ela lhe diz que estão sem utilidade. Procurando uma arma, encontra a sua espada. Chega meia noite e a lareira começa a girar sobre si mesma.

Paquita tem uma ideia: ela e Lucien agarram-se à parede que, girando sobre seu eixo, os leva para fora da choupana ao mesmo tempo que traz os bandidos para o interior. Estes ficam espantados de encontrar Inigo sozinho e dormindo, conseguem acordá-lo e ele fica furioso ao ver que suas vítimas fugiram.

No salão de festas da casa do comodante francês em Saragoça aparece o Conde d’Hervilly em companhia da futura nora e do Governador. A mãe do general, que vem com eles, está inquieta com a demora de Lucien. O conde a tranquiliza, mas, conforme o tempo passa, ele próprio vai ficando ansioso. Subitamente, os pares abrem o caminho espantados e Lucien entra com Paquita. A surpresa do general e sua mãe só é comparável à sua alegria, quando o jovem relata o perigo de que escapou. Dom Loez não pode ocultar a contrariedade da falha de seus planos.

Lucien conta que deve sua vida à coragem e dedicação de Paquita. O general fica admirado. Paquita deseja se retirar, mas o rapaz lhe diz que se ela partir, ele irá junto. O conde e a condessa prometem tomar Paquita sob sua proteção, porém lembram a Lucien que ele está noivo de Serafina.

De repente Paquita lança o olhar sobre o Governador e, recuando horrorizada, denuncia que ele peitou os homens para matarem o oficial. Diante dessa revelação, Lopez e sua comitiva recebem ordem de prisão. Paquita quer fugir e dá de cara com o retrato pendurado na parede, tira então o medalhão de seu seio e, comparando as imagens, nota que são idênticas. O oficial é seu pai e ela, a única sobrevivente da matança no Vale dos Touros, fora capturada por Inigo.

O general abraça a sobrinha (SIM! Lucien e Paquita são, em verdade, primos! E, descobertos ambos como nobres, podem, portanto se casar!) e a condessa leva-a para se vestir de acordo com a sua condição. A seguir o Conde D’Hervilly manda que o baile prossiga, e quando está quase acabando, Paquita reparece e dança um pas que serve de prelúdio ao conjunto final. É neste momento final do ballet que o casal finalmente se casa. E, em algumas versões é também aqui que se encaixa as variações das damas do casamento de Paquita, inclusive a que eu dancei.

2. Contexto da criação

Da versão original de Paquita, coreografada em 1846 por Joseph Mazilier para o Ballet de l’Opéra de Paris, são poucas as fontes que sobreviveram ao tempo. A coreografia,  que foi retirada do repertório do Opéra em 1851, foi apenas parcialmente preservada na Rússia. Lembro mais uma vez (não é a primeira vez que cito isso aqui), que Mazilier já foi o partner de Taglioni em La Sylphide. Para o ballet Paquita, Mazilier não foi só coreógrafo, mas também libretista, ao lado de Paul Foucher, quem recebeu royalties para escrever o libreto do ballet.

Originalmente chamado Empire, são diversos os fatos que contribuíram para a fama desse ballet na França, desde sua estréia. Um dos pontos principais foi a interpretação de Carlotta Grisi, já reconhecida e quase idolatrada por público e crítica pela criação da personagem Giselle, na coreografia homônima de 1841. Lembrando que a estreia de Grisi na Ópera de Paris em Giselle, fez dessa bailarina uma grande estrela (já falamos sobre isso inclusive no meu vídeo visitando o Palais Garnier).

Nessa época, Grisi virou a estrela principal da Ópera, onde foi primeira bailarina até 1849, e teve muitos ballets feitos especialmente para ela, como Giselle (1841) já mencionado, La Esmeralda (1844) e Paquita (1846). Também dividiu os palcos com as grandes estrelas da Ópera no Pas de Quatre (1845): Lucile Grahn , Fanny Cerrito e Marie Taglioni.

Grisi também teve uma forte amizade com o poeta e crítico Theóphile Gautier, quem a admirava intensamente. Inclusive, mais abaixo vocês vão ler mais abaixo o que ele escreveu sobre ela nesse ballet. Ele foi um grande crítico, e ela uma grande bailarina na mesma época, por isso não vai ser incomum escritos dele sobre a dança dessa bailarina.

Na sua criação, Paquita é aclamado pela sua mistura de novidade e tradição, dosando o pitoresco popular do momento com a técnica aperfeiçoada da interpretação pantomímica, sendo comentada, desde então, como um possível excesso de melodrama. Relembro aqui que Paquita é um ballet pantomima – isso quer dizer que é um ballet que as bailarinas se comunicam através de gestos, o que chamamos de “mis en scene”

Esses choques apontam para dificuldades da categorização da coreografia. Em questões de técnica, a movimentação principal era organizada pelo uso do Allegro. O Allegro, destoando do lirismo romântico presente em obras como Giselle e La Sylphide, propõe uma vivacidade quase única para a personagem principal da coreografia. A despopularização do Allegro ao longo do século XX e suas novas estratégias de elaboração pelas formas mais contemporâneas de dança podem ser, em parte, aquilo que leva bailarinas e públicos, nesse momento, a se sentirem ainda atraídos por essa obra tão peculiar.

No entanto, nada peculiar, e completamente integrada ao gosto do público daquele momento é a temática desenvolvida. As cenas, colocadas numa Espanha afrancesada abriam um espaço para novas formas de decoração, cenários e figurino. Não que a referência seja completamente única: a Espanha e suas influências rítmicas, coreográficas, literárias e visuais estão calcadas no repertório do ballet francês desde o final do século XVII, mas o que se vê aqui é uma nova tendência de mulheres mais carnais, em oposição às criaturas sobrenaturais que dominam a cena inicial do romantismo.

3. Versões do ballet

  • A primeira versão do ballet Paquita (foto acima) foi a que estreou no dia 1º de abril de 1846 no Theatre de l’Académie Royale de Musique, hoje Ópera de Paris, com coreografia de Joseph Mazilier, libreto dele e de Paul Foucher, música Edouard Deldevez, cenários de Philastre, Cambon, Diéterle, Séchan e Desplêchin. Nesta ocasião, Carlota Grisi foi a Paquita, ao lado de Lucien Petipá, que interpretou o papel de seu próprio nome.
  • Na versão de 1881 de Petipá e Minkus a dupla de primeiros bailarinos foram a bailarina Ekaterina Vazem (para quem Petipá fez o grand pas classique) e Pavel Gerdt. Em 9 de janeiro de 1882, Petipá encenou seu renascimento definitivo de Paquita para a Prima Ballerina Ekaterina Vazem, com o Premier Danseur Noble Pavel Gerdt como Lucien d’Hervilly. Esse revival foi especialmente significativo porque foi aqui que Petipá e Ludwig Minkus criaram as passagens mais famosas do ballet – o  Pas de trois,  a  Mazurka des enfants  e o  Grand Pas Classique. Talvez a característica mais famosa e distinta da peça seja sua miríade de variações de diferentes ballets. Uma encenação original de Petipá do Grand Pas Classique consiste em sete variações para nomes como Ekaterina Vazem, Varvara Nikitina, Anna Johansson e Alexandra Schaposchnikova. Entre eles estava uma variação para violino solo composto por Minkus para Vazem, mas não há evidências de que Pavel Gerdt dançou uma variação; Minkus certamente não compôs um para ele. Vazem mais tarde escolheria o  Grand Pas Classique como parte de sua performance beneficente de despedida em 1884.
  • Na virada do século XX, o Grand Pas Classique consistia em cinco variações quando executadas no ballet de corpo inteiro. A tradição de incluir uma miríade de solos clássicos começou em 1896 em uma apresentação de gala realizada no Palácio Peterhof com Matilda Kschessinskaya como Paquita, mas foi para a despedida do grande Enrico Cecchetti em 1902 no Teatro Imperial Mariinsky que a tradição realmente começou. Cecchetti não era apenas um dançarino famoso, mas um professor querido e todas as principais bailarinas do Imperial Ballet queriam participar da gala para homenageá-lo. Foi decidido que no Grand Pas Classique, eles deveriam dançar suas variações favoritas de várias obras como uma espécie de “maratona de variações” para homenagear o Maestro Cecchetti. A partir de então, era tradição incluir um conjunto de solos no Paquita Grand Pas Classique, quando era apresentado como uma peça de gala e a tradição permanece intacta até hoje. 
  • O renascimento de Paquita por Petipá foi notado no método de notação de Stepanov em 1904 durante os ensaios em que Petipá estava treinando Anna Pavlova no papel-título. As anotações fazem parte da Coleção Sergeyev, que está hospedada na Universidade de Harvard. Outra versão encenada no oeste foi notada pelo mestre de ballet francês Henri Justament e faz parte de sua coleção de partituras de ballets e ballets de ópera do século XIX. Esta poderia ser a versão de Mazilier, mas isso ainda não foi confirmado.
  • Em 1908 e 1909, o renascimento de Paquita em  Petipa foi apresentado pela primeira vez ao oeste em uma encenação abreviada por uma trupe de dançarinos do Ballet Imperial liderado por Anna Pavlova, Nikolai Legat e Alexander Shiryaev em uma turnê pelos Estados Bálticos , Escandinávia, Império Austro-Húngaro e Alemanha. 
  • Em 1952, Pyotr Gusev encenou um novo renascimento da peça para o Ballet Maly / Mikhailovsky, que mais tarde foi revivido por Oleg Vinogradov para o Ballet Kirov / Mariinsky em 1978.
  • Em 1964, Rudolf Nureyev encenou o Grand Pas Classique  para a Royal Academy of Dance, ocasião em que dançou junto com Margot Fonteyn, reapresentado para o La Scala Ballet em 1970 e novamente para o Vienna State Opera Ballet e American Ballet Theatre em 1971.
  • Em 1974, o Ballet Master Nikita Dolgushin encenou um novo renascimento do  Grand Pas Classique  para o Ballet Maly / Mikhailovsky. Para sua encenação, Dolgushin convidou uma grande pedagoga do Bolshoi Elizaveta Gerdt, filha de Pavel Gerdt, que havia atuado na versão de Petipa, para ajudá-lo a restaurar a forma da peça realizada no início do século XX. Em 1983, Natalia Makarova encenou uma nova versão para o American Ballet Theatre, para a qual a música foi arranjada por John Lanchberry e, em 2008, Yuri Burlaka encenou um novo renascimento para o Ballet Bolshoi, que desde então encenou para a Vaganova Academy e Nova produção de Paquitade Yuri Smekalovque foi encenada para o Ballet Mariinsky em 2017.
  • Foi só em 2001 que o ballet de longa-metragem de Paquita voltou ao palco. Antes disso, o ballet de corpo inteiro não era desenvolvido desde os anos 1920. Foi Pierre Lacotte quem devolveu  Paquita  ao palco quando, em 2001, foi contratado pela então diretora do Ballet da Ópera de Paris, Brigitte Lefèvre, para encenar uma nova produção do fardo. Para sua versão, Lacotte recoreografou completamente o ballet do zero, fazendo reorganizações drásticas na partitura e também incluiu sua própria versão do  Grand Pas Classique.
  • Em 2014, o coreógrafo e historiador russo Alexei Ratmansky e o historiador da dança Doug Fullington utilizaram essas notações para montar uma reconstrução do renascimento final de Paquita em Petipa para o Bayerisches Staatsballet (Ballet Estadual da Baviera). A reconstrução teve sua estreia mundial no Teatro Nacional de Munique no dia 13 de dezembro de 2014, com Daria Sukhorukova como Paquita, Tigran Mikayelyan como Lucien d’Hervilly e Cyril Pierre como Iñigo.

Obs: O ballet também teve versões de George Balanchine, Danilova, Natalia Makarova, Oleg Vinogradov, mas eu não encontrei nada sobre essas versões.

4. Curiosidades

  1. Na primeira versão do ballet, em sua estreia mundial, Carlota Grisi e Lucien Petipá, o irmão mais velho de Marius Petipá, dançaram os papéis principais: Paquita e Lucien. Os dois já tinham partners poucos anos no ballet Giselle, que fez de Grisi uma verdadeira estrela.
  2. A estreia mundial da versão de Mazilier e Delvedez aconteceu dia 1º de abril de 1846 na atual Ópera de Paris e foi um verdadeiro sucesso. Foi mantido como repertório da Ópera até 1851. Poucos meses depois, da estreia em Paris, o ballet estreou em Londres, no dia 3 de junho de 1846, quando foi encenado por James Silvain no Drury Lane Theatre, com Grisi mais uma vez no papel titular. Em 1847, Paquita foi encenada pela primeira vez na Rússia para o Ballet imperial de São Petersburgo por Marius Petipá e Pierre-Frédéric Malavergne , sendo a primeira obra que já foi encenada por Petipá na Rússia. Em 1881, Petipá produziu um avivamento do balletadicionando novas partes, especialmente compostas por Ludwig Minkus .
  3. Paquita  fez sua estreia na Rússia em 8 de outubro de 1847. Em 1848, Petipá encenou o ballet pela primeira vez em Moscou com ele e Elena Andreyanova novamente nos papéis principais. No entanto, durante suas aparições, ocorreu um incidente grotesco. Durante a primeira apresentação, enquanto Andreyanova dançava, um membro da platéia jogou um gato preto morto no palco com um pequeno cartão amarrado em seu rabo que dizia “Para a estreia danseuse”.Andreyanova ficou tão chocada que desmaiou e seu partner teve que carregá-la para fora do palco. A razão para este incidente foi devido às tensões entre o povo de Moscou e São Petersburgo e alguns dos moscovitas não foram muito bem-vindos à aparição de uma bailarina de São Petersburgo em sua cidade. No entanto, o incidente enfureceu o público e apresentações em posteriores, Andreyanova foi aplaudida com numerosas ovações e foi inundada com flores e presentes do público três semanas depois em sua apresentação beneficente. Apesar do insulto que confere em sua primeira apresentação, suas aparições em Moscou foram um sucesso.
  4. O compositor e o coreógrafo da versão mais famosa deste ballet, Minkus e Petipá respectivamente, foram também da versão mais famosa de Don Quixote, o que torna os dois ballets muito parecidos: ambos se ambientam na Espanha, têm um clima muito alegre, e as músicas e os figurinos são muito semelhantes.
  5. Em 1881, Petipá acrescentou uma coda de pas de trois de Paquita para o primeiro atoo grand pas classiqueno primeiro ato, e a Mazurka des enfants”(f0t0 acima – na extrema direita, temos o jovem Michael Fokine), e um divertissement  para o último ato, sendo este uma amostra do classicismo, contendo muito virtuosismo. A versão de Petipá de Paquita foi retido no repertório do Teatro Mariinsky até 1926. O ballet desapareceu de Paris na segunda metade do século XIX, mas na Rússia continuou a ser apresentado até o século XX. A coreografia de Mazilier acabou se perdendo e passou a ser conhecido como o Grand Pas de Petipá.
  6. Este ballet foi também fruto dos gostos exóticos do ballet romântico que prezavam tons de outras culturas, característica essa também muito presente nos ballets de Petipá. Já falamos um pouco sobre isso no post em que eu falei das características dos ballets de Petipá.
  7. Grandes bailarinas também fizeram o papel de Paquita, como, por exemplo, Anna Pavlova na sua própria companhia de ballet, Natalia Osipova no Royal Opera House, Maria Khoreva no Teatro Mariinsky.
  8. Inclusive, aqui no Brasil, Anna Pavlova dançou uma versão de apenas um ato deste ballet no Theatro Municipal em 22 de maio de 1918 em sua festa artística e para a despedida de sua primeira temporada no Rio de Janeiro.

5. O que a crítica disse sobre o ballet

Paquita foi uma tentativa para variar os convencionais ambientes coreográficos, fazendo a história se passar na Espanha e, na última cena, revivendo as glórias do Primeiro Império Francês.

Segundo Gautier,

“Este bailado, curso tema é um tanto excessivamente melodramático, obteve triunfo completo. O esplender e a originalidade dos vestuários do Império, a beleza da cenografia, e, acima de tudo, a perfeição das danças de Carlotta, garantiram o seu bom êxito”

Nesta passagem já conseguimos notar, como eu já tinha mencionado acima, a forte admiração de Gautier por Grisi.

O crítico afirma que

“o novo bailado foi muito bem sucedido e, à falta de vibrante interesse, o argumento do Sr. Paul Foucher fornece situaçōes favoráveis… à formação de grupos e à composição de danças pitorescas. Entre um punhado de pas muito bonitos inventados pelo Sr. Mazilier, devemos mencionar o pas de trois dançado pelas Senhorinhas Robert, Emarot e Barré; a festa cigana, inspirada pelos ensembles dançados no ano passado pelas Danseuses Viennoises, na qual Caroline e Dimier demonstraram muita graça; e todos aqueles destinados a ressaltar o original e vivo talento de Carlotta Grisi; e, finalmente, o delicioso arremedo de um baile dado por franceses durante o Império”.

Ao comentar a música de Deldevez, o mesmo escritor observa:

” Ideias, competência, drama, e um nítido senso do efeito teatral – tais são as qualidades que distinguem a música do novo bailado; acrescente-se a isso uma incomum habilidade, um tacto infalível, e uma rara moderação no emprego dos diferentes instrumentos orquestrais.”

“Os números da partitura aplaudidos com mais calor e mais justiça foram, no primeiro ato, o pas de trois com Carlotta Grisi, e as danças espanholas encabeçadas por Dimier e Caroline; durante o segundo ato, a peça sinfônica que tão claramente descreve o desenvolvimento do plano tramado contra Lucien, e, por fim, as danças rococó dos divertissements.”

Da Grisi como Paquita, diz o seguinte:

“É impossível apresentar maior graça, mais leveza, mais sedução, maior destreza, mais animação. A Srta. Grisi, ou melhor, Paquita, a cigana, permanece constantemente no palco, e seus minúsculos pés, semelhantes aos de uma ave, não têm um só momento de sossego. Arrebatadora e seus três vestuários, ela desempenha com inteligência a parte mímica e dança com espantosa perfeição. A todas as variações se seguem muitos aplausos; quase que cada passo, cada gesto da incansável artista é acompanhavo de um bravo!”

Gautier faz uma encantadora descrição da dança da Grisi na festa cigana:

“Nunca pés tão pequenos suportaram um corpo mais flexível e nunca as castanholas vibraram mais alegremente em pontas de dedos mais ágeis. Com que leveza ela salta e com que rapidez escapa às tentativas dos dois ciganos que são seus pares, pobres diabos que julgam poder apertar-lhe a cintura ou beijar-lhe a mão! Ela se arremessa para longe como uma serpente, sorrindo maliciosamente por cima dos ombros, e a perseguição recomeça de novo! Terminada a dança, toda ofegante e palpitante, estende o pandeiro para recolher a chuva de dinheiro que tomba de todas as mãos.”

Sobre a cena do ramo de flores, ele comenta:

“O leitor do resumo lembrar-se-á de como Lucien, fortemente atraído por Paquita, pede que ela lhe dê um raminho de flores que usa no vestido. É interessante notar que, no bailado romântico, tal pedido possui significado mais profundo do que aquele favor aparentemente inocente afiguraria representar, pois simboliza que a dona da flor se entregará a seu admirador. À proposta respodem com recato ou paixão, negando ou concedendo o ramilhete”.

O último pas de Grisi é descrito por Gautier como

“Cheio de intrepidez e inumeráveis dificuldades, tais como uma espécie de sauts à clochepied sur la pointe (saltar sobre a ponta de um pé só), com uma súbita viravolta executada com atordoante vivacidade, o que produz um misto de delícia e receio, pois que os movimentos parecem de execução impossível, embora ela os repita umas oito ou dez vezes. Tempestades de aplausos aclamaram a bailarina que teve de repetir duas vezes o pas depois de o pano descer”.

Paquita estreou em Londres no dia 3 de junho de 1846 (apenas 2 meses da sua estreia em Paris), no Teatro Real de Drury Lane, sendo ainda a Grisi a protagonista.

“Considerada como um drama”

observa o crítico de The Times,

“é esta uma peça bem feita, sem muita novidade… o bailado nada contém de pesado, ao passo que a cena do baile, com a qual termina, se acha excelente montada e oferece campo vasto para algumas danças admiráveis. Talvez não fosse errado considerar essa cena como a parte substancial do bailado, enquanto que o resto constitui uma espécie de prefácio.”

“Entre os pas d’ensemble deve mencionar-se um muito interessante denominado Pas des Manteaux, dançado pelos camponeses. Julgar-se-ia que todosos grupos dependentes do manejo das faixas e outras peças do vestuário já estavam esgotados, mas o espesso manto vermelho, que agora se enrola à volta do corpo, depois se estende de todo, é um novo material aproveitado com eficiência”.

A respeito de Grisi na interpretação de Paquita, declara o mesmo escritor:

“A vivacidade e a malícia com que obrigou o chefe cigano dançar até cair entorpecido após ingerir o narcótico, foram inimitáveis, enquanto que o pas seul no salãode baile, com o qual finda o bailado, foi um exemplo admirável do fulgor de sua arte. Os extensos e velozes saltos, os pequenos passos deslumbrantes, tudo foi executado à perfeição. À última “variação” deste solo todo a sala, entusiasticamente, pediu bis; e a esplendida bailarina foi ruidosamente chamada à cena depois de cair o pano”.

 

Sem mais, esse foi todo o material pesquisado sobre esse ballet! Quem tiver lido esse ENORME post, também vai ter aprendido bastante! Me aguardem para os próximos ballets!

Eu vejo você no próximo post!

 

Fontes Bibliográficas: