Hoje é dia de conhecer mais profundamente mais um ballet de repertório: La Fille Mal Gardée. La Fille estrearia mundialmente no dia 1º de julho de 1789 (essa data não é tão pacífica, mas chegaremos nesse ponto depois). Então, já que estamos em julho bora nos aprofundar mais nesse ballet!

O ballet La Fille estreia bem no auge da Revolução Francesa e anos após a publicação da obra “Lettres Sur La Danse” de Noverre e isso não é à toa. Dauberval, quem escreveu o libreto e fez a coreografia do ballet, foi aluno de Noverre. E o ballet trata do tema de um romance entre personagens de classes sociais diferentes (uma burguesa e um camponês) e a burguesia sai vencedora, assim como na Revolução.

Vamos falar de maneira mais extensa sobre isso logo mais. Como sempre, neste post vamos falar sobre o enredo, o contexto histórico, as versões (se preparem que nesse ballet são muiiiiitas) e as curiosidades. Aparentemente, não encontrei críticas da época sobre ele, mas só dele ter sobrevivido até os dias atuais, nem precisa falar do sucesso que é até hoje! Então, vamos começar pelo enredo!

1. Enredo

La Fille Mal Gardée é um ballet-cômico de 2 atos e 3 cenas e se passa numa fazenda no interior da França. O ballet estreou em 1 de julho de 1789 no Grand Théâtre de Bordeaux na França. Tivemos Marie-Madeleine Crespé (ou Madame Theodore, a esposa de Jean Dauberval) como Lise, Eugène Hus como Colas e François Le Riche como a Viúva Simone.

O primeiro ato se inicia numa pequena aldeia, em que há a casa da viúva Simone, a mãe de Lise (nossa personagem feminina principal) e uma pequena fábrica de laticínios. Ao fundo é possível ver ceifadores. Lise sai de casa com um ar de mistério e parece supreendida e decepcionada por não ver em parte alguma seu namorado Colas. Abre a queijaria, entre, e volta a aparecer com uma tigela de creme, que coloca no chão perto da porta. Resolve entrar, mas, para provar a Colas que não se esqueceu do combinado, tira uma fita do corpete e pendura-a numa árvore. (Quem nunca leu a história de La Fille pode não entender o significado das fitas, e aqui está: era como os camponeses selavam um compromisso amoroso). Esse primeiro ato é cheio de dancinhas do casal, inclusive do pas de deux com a fita, que fazem várias formas. Aliás, é um dos momentos mais difíceis do ballet para o casal principal. Nessa parte temos a tradicional dança das fitas envolta de Lise e também uma das partes mais difíceis do ballet para a primeira bailarina: fazer promenade na ponta segurando todas as fitas. Qualquer erro pode gerar um desequilíbrio e colocar tudo a perder!

Mal Lise desaparece e chega Colas, acompanhado por alguns ceifadores, a quem despede, e se dirige à porta nas pontas dos pés, escutando ansiosamente. Não ouve nada. Está prestes a partir quando vê a fita. Beija-a, prendendo-a ao seu cajado. Debruça-se à janela de Lise e está a ponto de lhe dar um beijo quando é surpreendido por Simone, que, furiosa, lhe mostra o punho cerrado. Em seguida, ela lhe atira a touca e está prestes a fazer o mesmo com uma cesta quando Lise abre a porta e avisa ao rapaz que saia. Colas se desvia da cesta e foge. Simone desce para repreender a filha, e esta, apanhando a cesta e a touca, devolve-as à sua mãe. A viúva, porém, não se deixa abrandar e exige uma explicação. Chegam vários camponeses e se oferecem para trabalhar como ceifadores. Simone contrata-os e dá a cada um uma foice, enquanto Lise prepara um cesto de provisões. A moça vai para perto deles enquanto a mãe a chama.

Colas aparece ao longe, mas Lise lhe faz sinal para se esconder atrás da casa, e continua a dar explicações que a viúva se recusa a aceitar, proibindo de sair. Quando Simone se retira para buscar uma desnatadeira, Colas se intromete na queijaria. Ela volta e, dando à filha um pouco de creme, diz-lhe que o bata para fazer a manteiga. Lise obedece; Simone dirige-se à leitaria e vai abrir a porta quando vê o resto de creme deixado por Lise. Reclama com ela por seu descuido e vai embora.

Depois lhe mostra a tarefa que lhe cabe e Colas deseja auxiliá-la a fazer a manteiga, mas, quando seus olhares se encontram, seus pensamentos se põem a devanear e o trabalho fica esquecido. Ouve-se rumor de passos e Colas sai enquanto Lise volta ao serviço. Chegam várias camponesas que procuram convencer Lise a ir para a colheita, mas Simone aparece e as manda embora, repreendendo a filha pelo pouco que fez.

Entram agora Thomas (fazendeiro rico) e seu filho Alain. Simone, ciente do motivo da visita, manda Lise para dentro. Thomas propõe então Alain que case com Lise. Esta proposta é aceita – a proposta é muito vantajosa para a viúva, pois, Alain sendo rico, Simone vê nele alguém para cuidar de sua fazenda depois que ela falecer. Lise não tem muita maturidade e nem muito conhecimento, logo Simone não confia na filha para esta responsabilidade.

Lise volta para ver se surpreender a conversa, mas esta já está concluída e ela não pode entender a razão do bom-humor que reina no ambiente. Sua mãe lhe dá licença de acompanhá-la à colheita. Alain oferece-lhe o braço; ela recusa e toma o do pai. Simone vai acompanhada por Alain.

Agora se inicia a cena II do primeiro ato num vasto campo cheio de ceifadores ao meio-dia.

Chega Colas e ordena que seja servida uma refeição. Simone, Lise, Thomas e Alain vão para casa. Colas cumprimenta os vizinhos. Alain pretende se sentar com as moças, mas o rival o coloca na mesma mesa do pai.

Terminada a refeição, começam várias danças, e por fim a própria Simone participa delas. A cena da dança dos tamancos acontece aqui. Procurem assistir, porque é uma das cenas cômicas do ballet. Colas aproveita a oportunidade para se sentar junto à namorada, porém a viúva o surpreende. Thomas ficam enciumados e partem de mau humor.

Outro aldeão vem substituí-los e suas maneiras agradáveis animam todas as moças. Ele toca flauta e as danças recomeçam. A seguir, ele participa das danças, mas, uma das moças foge com a flauta e o camponês corre em seu encalço.

A diversão toma conta de todos até que, de repente, se escuta o estrondo de um trovão distante. Desaba o temporal e os camponeses assustados resguardam às pressas seu trabalho e se retiram em desordem. Colas segue Lise, mas é surpreendido por Simone e foge. Lise, Simone e os ceifadores vão embora.

Começa o segundo ato no interior da casa de Simone.

Mãe e filha entram, cada uma carregando um feixe. Simone, exausta, cai na primeira cadeira que encontra e resolve se ocupar com a roca. Lise se apressa em ir buscá-la, enquanto Simone, percebendo que a porta foi deixada aberta, vai fechá-la.

Lise traz a roca e dois fusos. Elas começam a trabalhar, mas logo Simone adormece. Lise procura então lhe tirar a chave da porta, mas sua mãe acorda e lhe propõe que ela dance, acompanhando-a com um pandeiro. Lise dança, mas logo Simone volta a dormir.

Enquanto Lise dançava, espiou Colas pela porta, e vai agora falar com ele. Simone, entretanto, acorda num sobressalto e toca o pandeiro com toda a força. A moça se apressa em recomeçar a dança e Colas desaparece. Mãe e filha agora dançam juntas.

Batem à porta e os aldeões trazem os montes de trigo e recebem seus pagamentos. Os homens pedem algo para beber e Simone leva-os à adega, tomando o cuidado de deixar Lise trancada enquanto ela se ausenta.

Lise espia pela janela e fica decepcionada por não ver colas. Quando, porém, chega ao monte de feixes a fim de pegar o fuso, Colas aparece por trás das pilhas de trigo. Ele entrara com os ceifadores e se escondera atrás do trigo até que Simone fosse embora.

A moça fica muito assustada por se ver trancada em companhia de seu amor e o proíbe de se aproximar. Ele respeita sua vontade, mas a luta é árdua: o amor põe os jovens a duras provas. Lise tenta retornar a sua tarefa, mas começa a chorar e o fuso tomba por terra. Colas, achando que ela desmaiou, corre para socorrê-la. Tira o lenço e enxuga as lágrimas da amada. Ela lhe dá em troca o seu lenço. O casal se torna mais amoroso e é possível escutar que Simone voltou. O rapaz sobe pela escada, enquanto a moça finge que está dormindo numa cadeira.

Simone se deixa enganar, mas pergunta à filha onde obteve aquele lenço. Lise responde que é de sua mãe. A viúva, suspeitando que a filha estava conversando com Colas através da porta, ordena-lhe que vá para o quarto. Só que era justamente lá onde Colas estava escondido!

Thomas, Alain e o notário da Igreja chegam para firmar o contrato nupcial. Estava tudo nos conformes e Alain chama os camponeses para que vejam sua felicidade. Simone lhe dá a chave para que ele busque a sua noiva, mas, no exato momento em que ele põe o pé na escada, Colas sai do quarto e lhe barra a passagem. (Em muitas versões eles são pegos juntos se beijando no quarto nessa hora).

Simone fica muito aflita, mas Lise e Colas se ajoelham e lhe suplicam que os deixe casar. O notário e os camponeses tomam seu partido. O notário convence à viúva que o melhor para o casal é que se casem. Ela concorda e, para a tristeza de Thomas e de seu filho, dá o consentimento. E aqui termina o ballet com uma festa rústica.

2. Contexto da criação

O ballet, ao menos de início era para ter sido estreado na Ópera de Paris, eis que Dauberval era aluno de Noverre e já mestre de ballet por lá. Contam que Dauberval era um exímio bailarino, muito artístico e sensível. Inclusive Madeilene Crespé, que mais tarde virou sua esposa, também dançava por lá. Entretanto, houve um rompimento com a Ópera de Paris, que vou detalhar mais nas curiosidades, que acabou fazendo com que La Fille tivesse sua primeira apresentação em Bordeaux (ou Bordéus, em Português), uma cidade de menor porte também na França.

Jean Dauberval percorreu um caminho importantíssimo na dança. Ele ingressou na Ópera de Paris aos 19 anos de idade, chegou ao posto de Primeiro Bailarino aos 21, maître de ballet aos 29 e posteriormente, coreógrafo. Ele tinha 37 anos ao criar sua obra máxima, La Fille Mal Gardée, tendo como discípulos Didelot, Aumer e Vigano. Dauberval também chegou a coreografar outras obras como Le Deserteur, Psyché et l’Amour, Telemaqye e Le Page Inconstant. Mas nenhuma delas resistiu tão bem ao tempo como a sua obra mais conhecida. O bom humor com que foi construído com certeza garantiu o sucesso, a popularidade e a sobrevivência do ballet, bem como a leveza do tema, e a nova partitura musical, que mais tarde, em 1828 Ferdinand Hérold, vai criar.

O ballet foi baseado num quadro chamado “Le réprimande” de Pierre Antoine Baudouin, que mostra uma jovem sendo repreendida por sua mãe por não fazer suas tarefas domésticas, sem saber que o namorado estava escondido nas escadas. Jean Dauberval criou o libreto do ballet justamente inspirado nesta cena.

Importante explicar também outros fatos importantes no contexto histórico da criação deste ballet de repertório. Primeiramente, quanto à sua data de estreia, que se deu no dia 1º de julho de 1879. (A corte francesa era governada por Luis XVI e sua mulher Maria Antonieta. Luis XVI foi o primeiro rei francês a negligenciar a Ópera de Paris; ele tinha deixado essa responsabilidade para a sua mulher, que por sua vez não era muito fã, ela preferia a Igreja). Poucos dias depois, dia 14 de julho, ocorreria da Queda da Bastilha na França e com ela, a queda do Regime Absolutista, com o Rei e a Rainha guilhotinados. Não foi à toa que esse ballet estreou bem às vésperas de explodir a Revolução Francesa. Em La Fille, temos um casal apaixonado de classes sociais diferentes (Lise é uma burguesa, e Colas um camponês) e de certa forma a vitória da burguesia sobre a nobreza (representada por Thomas e Alain) – o mesmo ideal defendido e consagrado pela Revolução.

Outro fator também verificado em La Fille é que a burguesia finalmente passa a se identificar nos personagens do ballet e passa a frequentar mais os teatros, pois o ballet passa a ser não mais apenas um divertimento para a nobreza, mas para os burgueses também. Os personagens deixaram de ser Deuses mitológicos ou heróis e passaram a ser gente normal do povo.

Vou relembrar aqui Jean Dauberval foi aluno de Noverre (já falamos disso no post do dia da dança, mas não custa repetir). E o aluno fez direitinho a lição de casa ensinada por seu mestre. Para La Fille, nada de Deuses, personagens mitológicos, ou supérfluos do ballet de corte. Também foram abolidas as roupas pesadas e as máscaras da época anterior. Os personagens vão ser pessoas reais, ligados ao enredo da história, que vai ter início, meio e fim. Fora a pantomima, que vai ser bastante presente nesse ballet. Nada de falas ou de canto como teria antes. Pois, antes de tudo, o ballet agora é uma arte que não depende mais das outras, como o teatro e a ópera. Isso tudo está dentro do conceito de “Ballet D’Action” que Noverre criou em sua obra “Letters Sur La Danse”, e que foi o embrião do que conhecemos como Ballet de Repertório.

Dito tudo isso, observamos que La Fille é o primeiro ballet de repertório que se tem notícia! Da sua época, nenhum outro sobreviveu. Nota-se que ele é um ballet pré-romântico (o Romantismo vai ter como primeiro ballet La Sylphide. Mas faremos um post sobre ele depois). Embora, trata de um romance entre um casal, os ideais românticos, como a exaltação da figura feminina e do amor romântico, por vezes impossível, a presença de seres etéreos, por exemplo, não vão estar presentes em La Fille. Lise e Colas são “um casal como outro qualquer”, que poderia ser quaisquer pessoas do povo francês, que vivem um amor “real”. E isso não é visto no romantismo.

3. Versões

  • A primeira versão deste ballet foi a Jean Dauberval em Bordéus, no Grand Théâtre de Bordeaux, com Madame Theodore como Lise, Eugene Hus como Colas, e François Le Riche como Viúva Simone que estreou no dia 1º de julho de 1789. Para esta versão a música foi de Peter Ludwig Hertel.

 

  • Após a sua primeira apresentação em Bordéus, La Fille foi reapresentado diversas vezes ao longo do final do século XVIII e início do século XIX. O primeiro revival desse ballet foi encenado em Londres, quando Dauberval viajou para lá e montou a obra para o “Ballet of the King’s onde estreou a 30 de abril de 1791. Foi nesta encenação que o ballet foi renomeado como  La Fille mal gardée.  Vocês lerão seu primeiro nome nas curiosidades. Nesta ocasião, Charles Didelot foi Colas e a esposa de Dauberval foi Lise novamente. A música da versão de 1789 foi detestada pelos músicos do Pantheon Theatre.

 

  • Oito anos depois, o ballet foi novamente revivido para o palco de Londres pelo aluno de Dauberval, James D’Egville, no King’s Theatre em 1799.

 

  • O ballet fez sua estreia na Opéra de Paris em 1803 em um revival da versão de Dauberval encenada e criada por Eugène Hus, o criador do papel de Colas. Antes dessa produção, Hus utilizou o libreto do ballet em 1796 para uma ópera cômica intitulada Lise et Colin , que foi musicada por Pierre Gaveaux .

 

  • La Fille mal gardée fez sua estreia na Rússia quando foi encenada em Moscou pelo Ballet Master, Giuseppe Solomoni para o Teatro Petrovsky em 1800. Esta produção foi revivida posteriormente em 1808 pelo sucessor de Solomoni, Jean Lamiral, com ambas as produções usando uma partitura original do pastiche de 1789 .

  • O ballet foi posteriormente encenado em São Petersburgo Pela Primeira vez em 1818 por outro aluno de Dauberval, o renomado mestre de ballet Charles Didelot, sob o título La précaution inutile, OU Lise et Colin ( Precaução inútil, OU Lise e Colin). Outro aluno de Dauberval, Jean-Pierre Aumer reviveu o renascimento de Hus de La Fille mal gardée muitas vezes ao longo de sua carreira na Opéra de Paris e apresentadores o ballet a Viena em 1809.

 

  • Em 17 de novembro 1828, Aumer encenou uma nova versão de La Fille mal gardée na Opéra de Paris para uma nova partitura do compositor francês Ferdinand Hérold, que foi uma adaptação da partitura do pastiche de 1789. Essa versão foi especialmente feita para a bailarina Pauline Montessu.

 

  • Em 1837, Fanny Elssler fez sua estreia na Ópera de Paris como Lise na produção de Aumer de 1828 e para uma estreia de Elssler, um novo pas de deux  que foi adicionado para ela. Era um costume da época uma bailarina encomendar coreografias para si própria de ballets já prontos. Para seu novo pas deux, Elssler selecionou seus ares favoritos da ópera  L’elisir d’amore de Donizetti, que foram arranjados e orquestrados para ela pelo bibliotecário musical da Opéra Aimé Leborne.

 

  • Uma nova produção da versão Aumer / Hérold de La Fille mal gardée foi encenado na Rússia no Imperial Bolshoi Theatre em Moscou pelo Ballet Master Irakly Nikitin em 1845.

 

  • Em 1854, Jules Perrot encenou sua própria versão de La Fille mal gardée  de Aumer para o Ballet Imperial de São Petersburgo, com Cesare Pugni adicionando novos musicais. A encenação de Perrot de La Fille mal gardée foi realizada pela última vez em 1880 para uma performance beneficente de Pavel Gerdt.

 

  • Em 1864, Paul Taglioni, filho de Filippo Taglioni e irmão de Marie Taglioni, apresentou uma versão totalmente nova de La Fille mal gardée para o Ópera de Corte Ballet da Königliches Opernhaus em Mestre Berlim, onde foi contratado como mestre de ballet. Esta nova encenação foi definida com uma pontuação completa nova pelo compositor alemão, Peter Ludwig Hertel, que era o compositor residente da Königliches Opernhaus na época. La Fille mal gardée de Taglioni e Hertel estreou no dia 7 de novembro de 1864, sob o título  Das schlecht bewachte Mädchen (A Garota Mal Guardada), e foi um sucesso reconhecido.
  • Em 1876, uma grande Prima Ballerina italiana Virginia Zucchi fez sua estreia em La Fille na gardée de Hertel e Taglioni em Berlim durante suas viagens pela Europa. Em 1885, a bailarina foi convidada a pedido do Czar Alexandre III para dançar com o Ballet Imperial em São Petersburgo e para sua estreia no Teatro Imperial, Zucchi pediu para dançar na versão Taglioni / Hertel de La Fille mal gardée. Esse pedido exigia que Ivan Vsevolozhsky pagasse um preço caro para trazer de Berlim a pontuação de Hertel. Esta nova encenação de La Fille mal gardée viu a primeira colaboração entre Petipá e Lev Ivanov na encenação de uma nova produção de longa-metragem. Zucchi também reforçou na encenação, algumas das danças que conheceu da produção de Taglioni. No entanto, o papel de estreia de Zucchi no Ballet Imperial foi mudado no último minuto para o papel da Princesa Aspicia em A Filha do Faraó depois que a Prima Ballerina nativa do Ballet Imperial, Eugenia Sokolova, machucou a perna. Em 22 de novembro de 1885, Zucchi fez sua estreia em “A filha do Faraó”, e fez um estrondoso sucesso. Mas, um mês mais tarde, também dançou La Fille de Petipá e Ivanov.

 

  • O renascimento de La Fille mal gardée por Petipá e Ivanov foi apresentado pela primeira vez em 28 de dezembro de 1885, sob o título tradicional russo La Précaution inutile (Precaução Inútil), no Teatro Imperial Mariinsky, que recentemente se tornara a nova casa do Ballet Imperial. O ballet foi um grande sucesso, principalmente pela atuação de Zucchi. As performances de Virginia Zucchi como Lise receberam grandes elogios, tornando-se lendárias, e ela foi especialmente celebrada por suas performances do Pas de ruban do primeiro ato e da famosa cena da mímica “When I’m Married” do terceiro ato. Na verdade, relatos contemporâneos afirmam que sua atuação no trecho “When I’m Married” do ballet La Fille foi tão comovente que levou o público às lágrimas. Nesta ocasião, ela ficou conhecida como “Divina Virgínia”.

 

  • Após a partida de Zucchi da Rússia em 1887, Ivanov encenou uma versão resumida de La Fille mal gardée em duas ocasiões – no Teatro Imperial de Krasnoe Selo no verão de 1888 e no Teatro Imperial Mariinsky no mesmo ano. Nessas ocasiões, o papel de Lise coube a a Alexandra Vinogradova

 

  • Em 1894, ele reviveu o ballet completo para a primeira bailarina alemã Hedwige Hantenbürg, após o que o ballet encontrou um lugar permanente no repertório do Ballet Imperial. O papel de Lise se tornou o favorito entre muitas das grandes bailarinas do Ballet Imperial, incluindo Anna Pavlova, Olga Preobrazhenskaya, Tamara Karsavina e Matilda Kschessinskaya. Esta última não permitiu que nenhuma outra bailarina dançasse o papel de Lise. Mas falaremos mais sobre isso nas curiosidades.

 

  • La Fille mal gardée de Petipá e Ivanov  foi apresentada pela última vez pelo Ballet Imperial em 10 de outubro de 1917, um mês antes da Revolução Russa. A Revolução fez com que um grande número de obras do Ballet Imperial deixassem de ser apresentadas e eventualmente se perdessem. Foi o caso de La Fille Mal Gardée. Mas, felizmente o ballet foi notado no método de notação Stepanov entre 1903 e 1906 e faz parte da Coleção Sergeyev, que está alojada na coleção de teatro da Biblioteca da Universidade de Harvard.

 

  • Em 1903, Alexander Gorsky encenou seu próprio renascimento de La Fille mal gardée para o Ballet Imperial Bolshoi de Moscou, baseado na encenação de Petipá e Ivanov. Para sua produção, Gorsky muitos números musicais adicionais com a partitura de Hertel, incluindo peças de Riccardo Drigo, Léo Delibes, Cesare Pugni, Ludwig Minkus e Anton Rubenstein. Houve até uma ocasião em que encenou todo o terceiro ato com música de Wolfgang Amadeus Mozart.

 

  • O renascimento de Gorsky forneceu uma base para renascimentos de La Fille mal gardée durante uma era soviética. A primeira encenação soviética do ballet foi feita pelos coreógrafos Asaf Messerer e Igor Moiseyev para o Ballet Bolshoi em 1930, que incluiu um novo ato intitulado As Bodas de Lise e Colas para um arranjo musical retirado da ópera Orfeu de Mikhail Glinka. No entanto, esta produção não foi um sucesso e foi retirada do repertório do Bolshoi dois anos depois, quando um renascimento da produção não trouxe nenhum sucesso.

 

  • O Ballet Bolshoi fez outra apresentação de La Fille mal gardée quando Leonid Lavrovsky encenou uma nova versão em 1937. Para esta produção, Lavrovsky encomendou ao compositor Pavel Feldt a criação de uma nova partitura baseada na música tradicional de Hertel, que incluía toda a música interpolada que a partitura através do renascimento de Gorsky. Porém, assim como a encenação de Messerer e Moiseyev, uma produção de Lavrovsky não foi bem-produzida e foi retirada do repertório do Bolshoi após apenas onze apresentações.

 

  • A Rússia chegou a ver uma produção de La Fille mal gardée que ligou a música de Hertel quando o ex-diretor do Ballet Kirov (atual Mariinsky), Oleg Vinogradov encenou uma nova produção para o Ballet Kirov em 1989, que foi inaugurado na encenação de Petipá e Ivanov. Essa versão foi baseada no renascimento de Gorsky de 1903 e foi um grande sucesso. No entanto, a produção de La Fille foi retirada do repertório de Mariinsky logo após a saída de Vinogradov da companhia em 1995.

  • La Fille mal gardée de Petipá e Ivanov foi introduzida pela primeira vez ao oeste por uma trupe de dançarinos do Ballet Imperial liderados por Nikolai Legat, Alexander Shiryaev e Anna Pavlova durante sua vinda de 1909 pela Alemanha. A trupe apresentou uma versão menor do ballet em Berlim em 10 de maio de 1909 com Pavlova como Lise e Legat como Colas.

 

  • Pavlova mais tarde adicionou um novo resumo de La Fille mal gardée de Hertel, coreografada por Ivan Clustine, para o repertório de sua companhia, que estreou em Londres em 1912 e que já dançou diversas vezes pelo mundo. Muitas outras versões baseadas nas produções de Petipá, Ivanov e Gorsky foram encenadas no Ocidente ao longo do século XX. A primeira produção dessa versão a ser encenada na América foi por Bronislava Nijinska, que encenou o ballet para o Ballet Theatre (hoje American Ballet Theatre) em 1940.

  • A produção de Nijinska foi revivida em 1941 sob o título  The Wayward Daughter (A filha desobediente) e 1942 sob o título  Naughty Lisette (Lise levada). Em 1949, uma produção de 1942 foi revivida por Dmitri Romanov e permaneceu no repertório do Ballet Theatre por muitos anos. Em 1972, Romanov voltou ao American Ballet Theatre para encenar uma nova versão de La Fille mal gardée  de Hertel para uma companhia, com Natalia Makarova dançando o papel de Lise. (Na foto temos Makarova como Lise e Baryshnikov como Colas). A produção de Romanov mostrou-se popular no repertório da ABT, onde permaneceu até 1984.

  • Hoje, a versão mais famosa e popular de La Fille mal gardée é a produção de Sir Frederick Ashton, coreografada e encenada para o Royal Ballet em 1960. Ashton foi apresentado a  La Fille mal gardée  por Tamara Karsavina, que também lhe ensinou a cena “When I’am Married”. A música para a produção de Ashton é uma partitura original do pastiche de 1789 que foi ressuscitada pelo historiador da dança Ivor Guest e arranjada por Sir John Lanchberry. A partitura também usa a famosa dança dos tamancos da partitura de Hertel e Fanny Elssler Pas de deux de 1837. Ashton criou um número humorístico com essa música para Simone e quatro bailarinas, no início da qual Lise tenta sua mãe com um par de tamancos; ela os coloca e gira em um dos números mais célebres de Ashton, que também mostra os dançarinos usando os tamancos para executar sur la pointe (na ponta dos pés). Sobre o pas de deux de Fanny Elssler, foi encontrada uma redução para violino escondida na Ópera de Paris. Ashton ressuscitou o pas de ruban, pas de deux dançado com a fita de cetim rosa e acrescentou uma sequência com 8 bailarinas e 8 fitas. É aqui que há o famoso promenade da primeira segurando as fitas! Parte dificílima para a primeira bailarina, mas igualmente linda. La Fille mal gardée de Ashton estreou no dia 28 de janeiro de 1960 na Royal Opera House, Covent Garden com Nadia Nerina como Lise, David Blair como Colas (foto acima) e Alexander Grant como Alain. La Fille de Ashton foi o primeiro ballet inglês a usar, como material de pesquisa, a dança folclórica da Inglaterra. O ballet foi um grande sucesso e hoje continua a ser um dos mais populares integrantes dos repertórios de várias companhias em todo o mundo.

  • Em 2015, Sergei Vikharev montou uma reconstrução do revival Petipá e Ivanov de La Fille mal gardée para o Ballet Estatal de Ekaterinburg. A reconstrução estreou em 15 de maio de 2015 no Teatro Acadêmico de Ópera e Ballet do Estado de Ekaterinburg. Para essa reconstrução ele utilizou a Coleção Sergeyev.

4. Curiosidades

1. Quando o ballet estreou, seu nome era “Le ballet de la paille, ou il n’est quún pas du mal au bein” (“O Ballet de Palha ou Só Há Um Passo do Mau ao Bom”), em alusão ao decadente poder da monarquia. Somente 2 anos após a sua estreia, ao ser apresentado em Londres é que o ballet foi rebatizado para “La Fille Mal Gardee”, como conhecemos hoje, em referência à personagem de Lise.

2. Sobre o libreto, há uma curiosa história de como ele foi criado. Jean Dauberval estava por um acaso diante de uma loja de um vidraceiro, e olhando, viu “uma gravura barata, colorida, que reproduzia um jovem aldeão fugindo de uma casinhola, e uma velha zangada atirando-lhe em cima o chapéu que esquecera, enquanto uma camponesa se debulha em lágrimas. Ao cabo de muito curto lapso de tempo, a encantadora obra de La Fille Mal Gardee se achava terminada”.

3. Jean Dauberval, o criador do libreto e da coreografia, era casado com Madame Theodore. Ela mesma criou e dançou o papel de Lise na versão original. Madeleine Crespé, como era chamada, era uma exímia leitora, principalmente das obras de Rousseau. Ficou conhecida como “a filósofa com sapatilhas de ballet de cetim” e chegou a pedir conselhos para este sobre como lidar com as “habituais maquinações nos bastidores”. Ela própria tratou de observar as verdadeiras danças camponesas nos arredores de Bordeaux. Em 1781 ela foi para Londres com Noverre para estrelar “Rinaldo e Armida”. Noverre chegou a falar que, embora Crespé não tivesse saltado, era possível notar a sua leveza só pela forma que esticava seus pés. Na ocasião, ela teve seu contrato rompido com a Ópera de Paris (onde o casal costumava atuar como bailarinos e ele como mestre de ballet) com a ajuda de Maria Antonieta. Só que a bailarina resolveu passar o verão na França no Chateau de Dauberval e a Ópera mudou de ideia, por temer que outros bailarinos poderiam achar fácil romper o contrato também. Crespé foi presa e o público ficou indignado. Ela tinha se casado com Dauberval apenas 1 semana antes de ser presa. Após essa confusão, Crespé e Dauberval foram para Bordéus, onde ele foi mestre de ballet e ela, primeira bailarina e a cidade onde o ballet estreou. Crespé morreu jovem aos 36 anos.

4. Agora falemos do criador de Colas. Eugene Hus foi quem criou Colas e dançou esse papel pela primeira vez. E, como vimos, mais tarde, em 1796, ele adaptaria o mesmo libreto para a ópera de Pierre Gaveaux intitulada “Lise et Colin”. Em 1803, ele faria a versão da primeira apresentação de La Fille para a Ópera de Paris, também com base na versão de Jean Dauberval.

5. Sobre a música de La Fille, na época, não era comum, assim como ficou um pouco mais tarde que os compositores fizessem músicas especialmente para ballet. Não existiam partituras originais de ballet. A partitura original de La Fille mal gardée foi o tipo de partitura padrão para ballet ao longo do final do século XVIII e início do século XIX – um pastiche de vários números musicais emprestados de aberturas, concertos, duos de violino, sonatas, romances, barcarolas e óperas. A partitura de 1789 para La Fille mal gardée foi em si um arranjo de 55 músicas populares francesas. As partes orquestradas sobreviventes da partitura de 1789 não listam um compositor ou arranjador, e nenhum relato contemporâneo existente da produção original menciona um compositor. É possível que o próprio Dauberval tenha arranjado a partitura, pois ele certamente idealizou o cenário do ballet e foi um violinista competente. Se não foi o trabalho dele, então pode ter sido um dos músicos contratados pelo teatro. Um provável candidato pode ter sido Franz Beck, que na época era o mestre de música reinante no teatro de Bordeaux. Outra possibilidade diz respeito ao violinista da orquestra do teatro, hoje conhecido apenas pelo nome de Lempereur, que então compôs a música para Mareie Milet ou lHéroïne villageoise, tocada pela primeira vez em março de 1789.

6. Já falamos que quando o ballet foi dançado em Londres pela primeira vez em 1791, os músicos do Pantheon Theatre detestaram a partitura original. Na partitura nova londrina havia um escrito nela, riscando o nome “La Fille Mal Gardee” em que ironicamente chamaram o ballet pelo trocadilho de “Filly-me-gardy“, que, no inglês se traduzir literalmente significaria “potranca”, mas, isso indicaria “uma menina cheia de vida”, em referência à personagem de Lise.

7. La Fille é o ballet de repertório mais antigo que temos notícia e talvez por isso tenha sido também o que mais sofreu alterações. Vocês puderam ler no tópico anterior a quantidade de versões e de apresentações que ele teve! Fora as músicas que volta e meia eram alteradas! Teve também o título – o ballet já teve seu nome modificado uma porção de vezes! O que não é alterado e é sempre mantido é o libreto, a sua história original criada por Dauberval. Mas as nuances, as versões criadas foram quase que infinitas!

8. Não só o nome do ballet sofreu mudanças, mas também é possível vermos diferentes nomes para os personagens. Lise, por vezes pode ser Lisa ou ainda Lison, Colas, pode ser Colin ou ainda Kolen, a Viúva Simone já foi Viúva Ragotte ou ainda Marcelina (me perdoem, mas quando leio esse nome, consigo escutar o falecido Paulo Gustavo gritando por ele), Thomas pode ser Misho, e Alain, pode ser visto como Nicaise. Essas mudanças não são tão comuns, mas são possíveis de serem encontradas.

9. Sobre a confusão da data de estreia, já vi falarem 1789, já vi falarem 1786, então vamos esclarecer! O ballet começou a ser criado em 1786 durante uma viagem a Londres de Jean Dauberval numa espécie de excursão artística. Mas ele só veio a público na sua forma inteira em 1789 em Bordéus.

10. Como já havia tido o rompimento de Dauberval e Madeleine Crespé com a Ópera de Paris, onde os 2 dançaram, o ballet foi pensado para uma companhia pequena em Bordéus, a cidade de sua estreia. Até por isso La Fille conta com poucos personagens: Lise, Colas, Simone, Alain, Thomas, o notário da Igreja e um pequeno corpo de baile já são suficientes para montar o ballet.

Marianela Nunez (as Lise) in the Royal Ballet’s production of La Fille Mal Gardee at the Royal Opera House, Covent Garden, London. (Photo by robbie jack/Corbis via Getty Images)

11. Embora o papel de Lise seja geralmente conferido a primeiras bailarinas, é verdade que o personagem não necessita de primeiríssimas estrelas. A bailarina precisa ter técnica forte, juventude de interpretação, bom trabalho de pés e um certo charme. Ao mesmo tempo o papel pode ser muito gratificante, pois a bailarina dança muito e não sai de cena.

12. Para o papel de Colas, geralmente se reserva mais a bailarinos demi-caratère (bailarino de estatura mediana, de figura bem construída e elegante, de passos que devem ser executados com nobreza, de forma brilhante e ousada). A virilidade, a juventude e especialmente o aspecto de “cidadão comum”são imprescindíveis para uma boa performance.

13. O papel da Viúva Simone geralmente, por tradição, é interpretado por homens, até porque é um personagem meio desajeitado e cômico. Enrico Cecchetti, o criador do método italiano, já o interpretou diversas vezes.

14. La Fille mal gardée era o ballet favorito de Mathilde Kschessinskaya, tanto que por vários anos ela se recusou a permitir que outras bailarinas dançassem no papel de Lise. Eventualmente, no entanto, seu controle sobre o papel começou a se desintegrar e, para seu desânimo, foi dado a sua rival, Olga Preobrazhenskaya em 1905. Uma famosa lenda do teatro diz que Kschessinskaya não deixaria esse assunto passar levianamente e elaborou um plano para sabotar o desempenho de estreia de Preobrazhenskaya. Uma característica da encenação Petipá e Ivanov de La Fille mal gardée foi o uso de galinhas reais em um galinheiro como parte da decoração da cena do curral no primeiro ato. De acordo com a história, na noite da estreia de Preobrazhenskaya como Lise ,Kschessinskaya subornou um ajudante de palco para permitir que as portas do galinheiro se abrissem antes da variação de Preobrazhenskaya no  Pas de ruban. Assim que a música para a variação começou, as galinhas voaram por todo o palco, com algumas voando para o fosso da orquestra e pousando em alguns membros da orquestra. Mas se isso foi um plano malicioso, o tiro saiu pela culatra, pois Preobrazhenskaya dançou sua variação ininterruptamente do início ao fim como se nada aconteceu acontecido, recebendo uma tempestade de aplausos da platéia, para grande desgosto de Kschessinskaya.

15. Um escândalo real envolveu Kschessinskaya e a família Romanov após a estreia desta bailarina em La Fille. Sua performance nesse ballet em 1890 era uma apresentação de sua formatura no ballet pelo Ballet Imperial coordenado por Petipá. A jovem estava com 18 anos, e após a dança, a bailarina trocou olhares com o jovem Nicolau II, que contava com 22 anos na época. Eles não se casaram, e ela foi amante dele por um tempo, já que ele casou com outra mulher. Um tempo depois, Kschessinskaya se relacionou com o primo de Nicolau II, Andrei Vladimirovich, mas casou-se com o primo deste, Sergey Vladimirovich (ambos eram grão-duques). Por esse motivo, a bailarina chegou ao posto de Primma Ballerina, sendo uma das mais famosas de seu tempo, mas Petipá contestou essa conquista, alegando que ela só conseguiu esse posto por sua influência na corte imperial russa. Seja por qual motivo for, era inegável o talento da bailarina.

16. Uma passagem muito famosa hoje associada à produção do Ballet Imperial de La Fille mal gardée é a chamada La Fille mal gardée Pas de deux, que é um trecho popular em galas e competições. A Escola Vaganova costuma apresentar anualmente no Teatro Mariinsky. No entanto, ao contrário da crença popular, este pas de deux não foi criado por Petipá ou Ivanov. Na verdade, foi criado por Gorksy para seu renascimento em 1903, embora a versão dançada hoje seja um renascimento soviético da versão original de Gorsky, possivelmente por Pyotr Gusev dos anos 1930. Os números musicais usados ​​são de Alphons Czibulka, Riccardo Drigo e Johann Armsheimer:

  • Adágio – tirado do  Valse austríaco da Scène de Ballet de Czibulka
  • Variação masculina – também retirada do  Valse austríaco  da Scène de Ballet de Czibulka
  • Variação feminina – uma coda suplementar composta por Drigo para o revival de Alexander Shiryaev em 1903 do ballet de Ivanov de 1887, The Haarlem Tulip
  • Coda – um galope geral de Armsheimer no balé de Petipa de 1896, The Cavalry Halt

17. No Brasil vimos a primeira vez esse ballet  no Theatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 24 de julho de 1928 com a Companhia de Pavlova, sendo que a própria Anna Pavlova dançou como Lise. Pierre Vladmiroff foi Colas e Violeta Fauchen foi Simone. Foi uma versão com 1 ato e 2 cenas, com música de Tschesepuin e cenários de Clustin.

18. A variação deste ballet que é super dançada Brasil a fora não é da criação original de Jean Dauberval, mas sim de Alicia Alonso (ex-diretora do Ballet Nacional de Cuba) de 1952. Ao que me consta, parece ser do Grand Pas de Deux do Segundo Ato. Créditos dessa informação ao Instagram @mundorepertorio, que foi onde eu a encontrei pela primeira vez. Confesso que fiquei muito encucada por essa informação! Eu já tinha visto uma versão completa do Royal, cheguei a pesquisar a do Bolshoi também e nada da variação tão dançada nos festivais! Agora estou mais feliz por essa explicação. E vocês?

 

 

Fontes Bibliográficas:

  • O Livro do Ballet, um guia dos principais bailados dos séculos XIX e XX – Cyril W. Beaumont, Tradução de João Henrique Chaves Lopes – Editora Globo
  • Ana Botafogo Na Magia do Palco – Suzana Braga
  • https://petipasociety.com/
  • Wikipedia
  • https://www.cubatesouro.com/ballet-nacional-cuba/
  • https://anabotafogomaison.com.br/la-fille-mal-gardee/
  • https://www.encyclopedia.com/women/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/crespe-marie-madeleine-1760-1796&prev=search&pto=aue
  • https://www.danzahoy.com/home/2017/11/dos-clasicos-que-hacen-historia/
  • http://www.museusdoestado.rj.gov.br/sisgam/arquivos/FTM/documentos/051524_1565053612.pdf
  • https://it.autograndad.com/728875/1/la-fille-mal-gardee.html&prev=search&pto=aue
  • https://www.michiganballet.org/la-fille-mal-gardee&prev=search&pto=aue

E isso foi tudo o que eu pesquisei sobre esse ballet.

O que vocês mais gostaram de aprender sobre ele? Comentem aqui para eu saber!

Vejo vocês no próximo post!