O fouetté é sem dúvida o giro mais difícil do ballet! Além de envolver uma série de movimentos coordenados, que devem ser feitos ao mesmo tempo, exige muita resistência da bailarina. E, eu aposto que você já deve ter se perguntado: de quem foi essa ideia de fazer 32 fouettés seguidos numa coreografia? Porque tanto ballet de repertório tem essa sequência no final? É para matar a bailarina?

Vou responder essa e outras perguntas no post de hoje!

Afinal, tem tudo a ver com a minha meta do ano (spoiler: que eu acabei de conseguir!), então bora lá falar sobre os temidos e famosos fouettés!

1. Significado

A palavra francesa “fouetté” significa “chicoteado”, em razão da ação rápida da perna de trabalho. Por isso, no ballet clássico, não há só um, mas VÁRIOS tipos de fouetté, que vou falar a seguir.

2. Tipos de fouetté

fouette italiano

Sabendo o significado do nome fouetté, acabamos de ver que existem vários tipos. O mais famoso dele é o fouetté rond de jambe en tournant, muito comum na parte final da coda dos grandes ballets de repertório e que, como o nome já diz, tem base no rond de jambe en l’air.

Mas existem também o grand fouetté en tournant, também conhecido como “fouetté italiano” (do gif acima, que também pode finalizar em 3º arabesque), o fouetté por relevé, o fouetté sauté, por exemplo.

3. A execução pode variar de acordo com o método do ballet

fouette russo

A depender do método de ensino, o fouetté rond de jambe en tournant pode ser feito de duas formas diferentes. No método inglês (Royal) a perna de trabalho desenvolve num developpé a frente, leva esticada ao lado e recolhe num relevé passé; já no russo (Vaganova), ela apenas vai abrir ao lado e recolher para o relevé passé, como no gif acima.

4. Os primeiros fouettés no palco

Embora Pierina Legnani leve a fama pelos 32 fouettés, ela não foi a primeira a conseguir a fazer múltiplos desse giro. Antes dela, a bailarina também italiana, Emma Bessone, executou uma sequência de 14 fouettés no ballet de Lev Ivanov de 1887, “La Tulipe de Haarlem”.

5. Primeira bailarina a fazer 32 fouettés

Incontáveis foram as vezes que eu já citei a dona Pierina Legnani por aqui, não é mesmo? Mas caso seja a primeira vez que você esteja lendo o meu blog, foi essa bailarina italiana quem fez primeiro os famosos 32 fouettés, na Coda do Ballet Cinderela de Lev Ivanov e Enrico Cecchetti (Sim! O Cecchetti da Escola Italiana). No dia 17 de dezembro de 1893, data da estreia deste ballet, Pierina surpreendeu o público com a quantidade de giros que ela deu em torno de uma perna só – os 32 fouettés foram uma novidade da época. E o público ficou tão impressionado, que pediu “bis”, mas na repetição, ela fez 28, que já era bastante para a época, e não 32.

Após esse ballet, Pierina Legani realizou o mesmo feito no ballet O Lago dos Cisnes. Ela foi a primeira bailarina a interpretar o papel duplo de Odette-Odile (antes dela, duas bailarinas diferentes interpretavam cada uma delas), tornando mais verdadeira a ilusão de que eram a mesma pessoa causada ao Príncipe Siegfried. Na trama deste ballet, Odile usa dos fouettés para enganar e seduzir o príncipe, fazendo com que Siegfried jurasse amor eterno à ela, ao invés de Odette. Há quem diga inclusive, que Lago é o único ballet que de fato necessitaria dos 32 fouttés, justamente porque eles servem como artemanha da personagem de Odile para enfeitiçar. Mas o fato é que após Pierina, o momento da Coda, que é onde são feitos os 32 fouettés, é um dos mais emocionantes e mais esperados pelo público.

Apenas de curiosidade, Pierina foi também a primeira a ser intitulada “Primma Ballerina Assoluta”, um título antigo dado apenas a Primeiras Bailarinas que se destacaram. Poucas as bailarinas receberam honraria tão grande. E no caso de Pierina, ainda foi dado por Petipá! Honra dupla, hein! Ou tripla: a primeira a fazer fouettés, a primeira a ser Primma Ballerina Assoluta e ainda ter esse título dado por Petipá! É uma honraria para uma bailarina só!

6. Fouetté: passo feminino?

Sabemos que o fouetté, depois de Legnani virou um grande momento, muito esperado pelo público e também o de mais euforia. Eu só tinha visto até então mulheres fazendo fouetté na ponta nos grandes ballets de repertório. Até que fui pesquisar e vi que existe sim um ballet em que o homem faz fouetté.

Abaixo, o ballet “Etudes”, com o bailarino Kenneth Greve executando fouettés na meia ponta com bailarinas vestidas de tutu bandeja fazendo na ponta no fundo o mesmo passo, todos vestidos de branco. Achei incomum e ao mesmo tempo LINDÍSSMA a composição! Espero que gostem tanto de assistir quanto eu!

7. Coda

Já falamos num dos tópicos anteriores que a Coda é a parte do Ballet onde ocorrem os fouettés. Na verdade, como já falamos em outro post sobre os ballets de Petipá, a Coda é a parte final do Grand Pas de Deux. Foi este gênio do ballet quem criou essa estrutura de grand pas de deux que conhecemos hoje, com: entrée, adágio, variação masculina, variação feminina e a coda. Lá naquele post eu detalho um pouco mais cada uma dessas partes. É nela que ocorrem os 32 fouettés, feitos pioneiramente por Legnani e há também uma sequência de giros e saltos, feitos em manége, que quer dizer “picadeiro”, por isso, essa sequência é feita contornando o palco.

Abaixo, coloquei um exemplo de Coda do Lago dos Cisnes, com Marianela Nunez, minha bailarina preferida da atualidade, dançando pelo Royal Ballet, com o partner Vadim Muntagirov. Os dois arrasaram MUITO! Observem que, assim como já foi dito acima, é o momento do ballet que Odile usa dos fouettés para enfeitiçar o príncipe para que ele se apaixone por ela. É um verdadeiro golpe de sedução!

8. Fouetté é pura física

Provavelmente você já deve ter visto um vídeo do YouTube do TED explicando a física por trás do fouetté. Caso você, não tenha visto, vou deixar aqui! Ele está em inglês, mas você pode ativar as legendas em português, caso você não entenda inglês tão facilmente.

A verdade é que, não só o fouetté, o passo mais difícil do ballet, mas como toda essa arte, é PURA FÍSICA! É, meus amores, não tem jeito! Eu confesso, que era a matéria que eu menos gostava na época do colégio. Mas no ballet, não tem escapatória! Porque ele é física pura! A física consegue explicar como acontece cada movimento do ballet, nossa arte tão perfeitinha que tudo tem um porque!

9. Exigências

Há quem diga por aí que o ballet clássico parou no tempo, que é o mesmo desde sempre. A pessoa que diz isso provavelmente não estudou história da dança e do ballet. Inclusive já falei disso nesse vídeo do meu canal do YouTube aqui.

O ballet mudou SIM ao longo dos séculos e MUITO! O fato é que lá atrás quando as bailarinas começaram a fazer múltiplas piruetas ou os 32 fouettés, aquilo era inovação, hoje não mais.

Até há não muito tempo atrás, toda bailarina profissional tinha que fazer dupla pirueta, hoje, digamos que a tripla é a nova dupla! Inclusive eu fiquei tão feliz de conseguir a minha! Mostrei o exato momento nesse vídeo aqui!

Mas, fazendo uma contextualização histórica MUITO breve! Antigamente, as sapatilhas de ponta eram de outro material, os figurinos era mais volumoso, o tipo físico das bailarinas era outro, e a técnica clássica, outra totalmente diferente. Por isso, está cada vez mais comuns as bailarinas profissionais ou aspirantes a profissionais fazerem cada vez mais piruetas sem se quer ter a ajuda do partner! Hoje temos bailarinas que fazem 10 piruetas na ponta sozinhas ou até mais! E, nos fouettés, hoje, cada vez mais, vemos esse passo junto com pirueta dupla, tripla ou mais, ou até fouettés que mudam de direção!

Então, podemos dizer que o ballet como um todo mudou, as exigências de quantidade e qualidade também subiram: piruetas múltiplas, passé mais alto, passé mais en dehors do que antigamente e virtuosismo é o comum esperado! Mas tudo isso porque todo o contexto mudou!

Abaixo, um compilado que achei no YouTube de vários bailarinas e bailarinos fazendo múltiplas piruetas  e múltiplos fouettés com virtuosismo e controle para inspirar vocês!

 

E essas foram as 9 curiosidades sobre o fouetté, o passo mais difícil do ballet!

E eu espero vocês no próximo post!